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2026-04-13

A DIGRESSÃO NECESSÁRIA

O Ser entre Nascimento e Morte, e o Par Śrāddha–Śraddhā
(O eixo ritualístico e interior do Mahābhārata e do Śraddhā Yoga Svatantra)
Bhīṣma entre śrāddha e śraddhā: a morte como rito, a vida como oferenda interior.

Epígrafe
“Assim como o Ser é eterno,
assim também é o ciclo das oferendas.
Pelo rito exterior mantém-se o mundo;
pela verdade do coração sustenta-se o dharma.”
Eco sintrópico do Bhīṣmaparvan


1. O Enigma do Ser que Nasce e Morre

Desde que o primeiro ser humano contemplou o corpo sem vida do outro, nasceu a pergunta que nenhuma metafísica, ciência ou ritual conseguiu eliminar:

O que nasce? O que morre?

2026-05-19

Śrāddha e Śraddhā

O rito como pedagogia da continuidade

A morte retira a presença visível, mas não dissolve imediatamente o vínculo.

Quem parte deixa de estar disponível como corpo, voz, gesto cotidiano e presença concreta. Mas não desaparece simplesmente da vida dos vivos. Permanece como memória, dívida, gratidão, ferida, bênção, transmissão, pergunta. A morte muda a forma da relação; não a elimina de imediato.

É por isso que toda cultura humana precisou encontrar gestos diante dos mortos. Silêncio, fogo, água, alimento, pedra, palavra, canto, sepultamento, cremação, lamento, oração: todos esses gestos dizem, de modos diferentes, que a morte não é apenas fato biológico. Ela é também crise de continuidade.

O śrāddha nasce nesse ponto.

2020-10-17

Śraddhā Yoga: (I) A Natureza da Meta

A Bhagavad Gītā como a Expressão Paradigmática da Metáfora Fundamental sobre a Arte e a Ciência da Meditação
Sanjaya narra o diálogo da Bhagavad Gītā
para o rei cego Dhritarashtra.

Este texto é o segundo da serie de pequenos artigos adaptados do capítulo "A Fenomenologia da Consciência do Śuddha Yoga: ciência, espiritualidade, meditação e o surgimento de um novo paradigma", de minha autoria, que encerra o livro O Estudo da Consciência – Inovação Pessoal e Redes Sociais (Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2020), objeto do texto anterior (ver aqui).

Parte essencial da narrativa maior do épico Mahābhārata (aproximadamente 100.000 versos), os setecentos versos da Bhagavad Gītā constituem, muito provavelmente, a primeira reportagem de guerra em tempo real de que se tem notícia (TURCI, 2007b). O episódio da Bhagavad Gītā representa a reportagem feita ao rei cego Dhṛtarāshtra em seu palácio sobre os fatos que estão se passando no campo de batalha, instantes antes do seu início. A importância da Bhagavad Gītā deve-se ao fato dela registrar o diálogo que restabelece os fundamentos perdidos da ancestral arte e ciência da meditação, conforme praticada pelos antigos sábios da tradição védica (Ṛṣis). 

2023-05-14

Entropia e Sintropia na Bhagavad Gītā e no Mahābhārata (II)


Vida contra a Morte:
a questão central do Mahābhārata 

Há algo em comum no modo conforme os grandes seres enfrentam certas questões cruciais, face à própria morte. Sócrates, condenado à morte por envenenamento, vê na cicuta (veneno) o medicamento que lhe traria a libertação final de sua alma. Toma a cicuta em paz porque tem certeza de que vivera de forma coerente. Em comparação com a sua determinação de avançar em direção à verdade, a sua própria necessidade de se autodefender desaparece. De igual modo, Jesus, no tribunal romano, cala-se ao ser perguntado se era o rei dos judeus. Bastaria que negasse a acusação e estaria livre, conforme as regras jurídicas vigentes na época. Entretanto, prefere a morte, que fica como testemunha das verdades que professou. Ambos parecem entender a morte apenas como morte do ego, o princípio material de organização do indivíduo. 

2026-05-19

O Jīva e as Moradas Sutis

Morte, memória e śraddhā na continuidade do Real
A morte não explica o invisível: revela a orientação do jīva.
Quando a forma se desfaz, permanecem as moradas que a vida aprendeu a habitar.

A morte é o limite diante do qual toda doutrina se apressa.

Algumas querem descrever o invisível como se fosse território conhecido. Outras reduzem o mistério à dissolução física. Outras ainda transformam a esperança em sistema, o medo em crença, a perda em promessa. Mas o Śraddhā Yoga Darśana não precisa começar por uma cartografia do além. Começa por outro gesto: contemplar a continuidade do jīva a partir da experiência viva do corpo, da memória, do desejo, do discernimento e da presença.

2026-04-24

OṂ ṚTADHVANĪ SVĀHĀ (II)

A fórmula mínima do Śraddhā Yoga Darśana
A ressonância de Ṛta no coração — vida como ritual.
OṂ ṚTADHVANĪ SVĀHĀ

entro em sintonia com a ordem viva do real (ṚTADHVANĪ); transformo a vida em ritual (SVĀHĀ).

Este mantra exprime a forma mais condensada do Śraddhā Yoga Darśana. Não se trata de uma técnica, nem de um exercício devocional no sentido habitual. Trata-se de uma postura ontológica: viver em sintonia com a ordem viva do real e responder a ela como oferenda.

2026-05-28

Do Silêncio ao Mergulho

Śraddhā: o fôlego do Jīva
Do OṂ ao AUM, o Puruṣottama se manifesta;
no oceano da vida, o Jīva mergulha sustentado pelo fôlego de śraddhā.

Do OṂ ao AUM emerge o
Puruṣottama no universo manifestado.
Assim também se dá com o Jīva:
da condição silenciosa de śrāddha
nasce a confiança viva de śraddhā.

1. A constatação do ruído

O cenário contemporâneo apresenta-se como uma avalanche informacional ininterrupta.

Ao primeiro despertar, a mediação técnica das telas já impõe ao indivíduo um estado de prontidão permanente. Dezenas de estímulos sobrepostos — crises geopolíticas, disrupções tecnológicas, polarizações ruidosas, promessas de salvação técnica, anúncios de bem-estar e indignações instantâneas — disputam simultaneamente a atenção humana.

2026-01-12

Os Saṃskāras — Arquitetura Ritual da Vida no Śraddhā Yoga

(Janma, Dīkṣā, Abhiṣeka, Vivāha, Mṛtyu, Śrāddha, Śraddhā)

Quatro portais, um eixo. Nascimento, iniciação, consagração e morte:
a arquitetura do Ser no tempo. Os saṃskāras não explicam a vida — eles a sustentam
.


Os Saṃskāras — A Inscrição do Real no Tempo

A vida não é uma sequência de eventos. É uma travessia consagrada. Cada nascimento, cada encontro, cada passagem, cada perda, cada morte é uma porta ontológicaE toda porta pede forma.

No Śraddhā Yoga, chamamos essas formas de saṃskāras.
Não como costumes. Não como folclore. Não como tradição morta.
Mas como a arquitetura ritual da vida quando o real quer ser vivido com consciência.

2025-11-30

KĀLA — O TEMPO COMO ESCALA ABSOLUTA: ENTROPIA, SINTROPIA E O RITMO DO REAL


(Ṛtadhvanī–Bhāṣya)

O tempo não é linha. Não é extensão. Não é sequência de instantes empilhados como contas de um rosário mecânico. O tempo, visto a partir do coração, não é medida — é escala. É o modo como a consciência respira.

Nota sobre Philip K. Dick e o tempo ortogonal

O escritor Philip K. Dick intuiu algo profundamente distinto do tempo linear: um “tempo ortogonal”, perpendicular à cronologia, onde passado, presente e futuro coexistem simultaneamente. Não como um mero acervo de registros, mas como uma dimensão viva do Ser.

Essa visão influenciou toda a contracultura ocidental justamente porque apontava para o que a física mecanicista não podia compreender: que o tempo pode ser não-extensional.

Contudo, no Śraddhā Yoga vamos além: aquilo que PKD chamou de “tempo ortogonal” não é um repositório de eventos, mas a sombra cultural de uma realidade mais alta — Kāla, o tempo absoluto.

2019-01-08

Movimentos de Convergência: (5) Norman O. Brown e a abertura para o mistério

Movimentos de Convergência: (5) Norman O. Brown e a Abertura para o MistérioLuiz Carlos Maciel foi introduzido ao pensamento de Norman O. Brown, (veja aqui) por meio de seu colega, o jornalista Sérgio Augusto, que lhe indicou o livro Life against Death. Maciel, entusiasmado com o texto, convenceu a Rose Marie Muraro a propor a tradução do texto para a Ed. Vozes, de Petrópolis, que o editou com o título Vida contra Morte: uma interpretação psicoanalítica da história. Trata-se do único livro de Norman O. Brown traduzido para o Português. O subtítulo traz os dois elementos constitutivos da síntese pretendida no texto: a história, o elemento marxista, de esquerda; e o elemento de direita, a interpretação psicoanalítica, freudiana, do inconsciente.

2016-12-01

Coração Tranquilo: ressignificando a Haṃsa Tattoo


Hoje (01.12.16) faz seis meses que viajei para São Paulo para realizar a segunda cirurgia do câncer na língua. Internei na quarta-feira e fiz a segunda cirurgia1 na quinta, 02.06.16. No dia da internação, saímos cedo do Rio de Janeiro e fomos para o apartamento de minha mãe. Almoçamos no restaurante vegano Annaprem e seguimos para o ICESP.  Foi nesta cirurgia que ganhei a minha "Haṃsa Tattoo". O vídeo abaixo ilustra o que ela significa para mim: "Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo", como  diz o mantra do socialista zen Walter Franco.

2026-01-27

O MOVIMENTO DO SER

(A Contemplação como Morada e a Unidade dos Dois Pássaros)
1. O Encontro dos Dois Pássaros

Toda a angústia humana – e toda a sua busca – pode ser resumida na distância imaginária entre dois pássaros pousados na mesma árvore. A antiga metáfora védica nos apresenta o primeiro pássaro, o Jīva (a alma egoica), inquieto, saltando de galho em galho, provando os frutos doces e amargos da experiência, perdido na vertigem do vir-a-ser. O segundo pássaro, o Ātman (o Espírito), permanece imóvel. Ele não come, não busca, não teme; ele apenas observa. Ele é a Testemunha Silenciosa, a plenitude que é.

2026-07-26

A PERFEITA ALEGRIA — De Śreyas a Ānanda: a Ação Contemplativa como o Gosto de Ṛta

A alegria não nasce da adversidade, mas da consonância do gesto que,
mesmo após a tempestade, devolve passagem ao fluxo do Real.
Abertura

Há um momento do caminho em que o melhor precisa ser escolhido contra o agradável. A Kaṭha Upaniṣad distingue śreyas, aquilo que verdadeiramente conduz ao bem, de preyas, aquilo que imediatamente agrada. Ambos se apresentam à pessoa, mas não a conduzem ao mesmo destino. A maturidade começa quando se aprende a reconhecer sua diferença e a conceder precedência ao melhor, mesmo quando isso exige esforço, renúncia ou transformação.

Essa precedência constitui uma das raízes da disciplina sintrópica. Enquanto a consciência permanece submetida à atração imediata, o agradável tende a converter-se em critério da ação. O desejo pergunta primeiro o que satisfaz; o discernimento pergunta o que orienta. Meditar significa, nesse estágio, interromper a captura, sustentar a atenção e permitir que śreyas seja ouvido antes que preyas determine a escolha.

2023-05-22

A Cultura Sintrópica e o Espírito, este desconhecido

O mundo é tal como nos parece,
feito de coisas que não aparecem.

Conforme explico mais detalhadamente ao longo dos capítulos seguintes, logo que conheci Francisco Barreto, em 1979 fui convidado a experimentar mais profundamente a forma de viver proposta no Śraddhā Yoga, muitas vezes chamada de “espiritualista”, por falta de um melhor nome, mas que, na verdade, integra e unifica as experiências do universo fenomenológico, dando igual peso à matéria e ao espírito. O Śraddhā Yoga, em seu nível mais profundo, não nos convida a assumir, nem uma postura teísta, nem ateísta, mas aquela oriunda de se compreender o equilíbrio sintrópico destes dois níveis de percepção de uma mesma realidade: o nível entrópico (rajásico e tamásico) do mundo, experimentado como saṃsāra; e o nível sintrópico (sáttvico) desta mesma realidade “material”, experimentado de forma espiritual e laica como nirvāṇa.

2026-01-07

As Quatro Dimensões do Śraddhā Yoga: Darśana, Svatantra, Saṃvāda e Saṃskāra

A Arquitetura Dinâmica do Śraddhā Yoga. O diagrama ilustra o fluxo perpétuo da tradição: a Visão (Darśana) ganha corpo na Forma (Svatantra), humaniza-se no Encontro (Saṃvāda) e eterniza-se no Tempo pelo Rito (Saṃskāra). Tudo orbita e se alimenta do centro ontológico: o Hṛdaya (Coração).

Todo caminho espiritual autêntico se organiza segundo quatro gestos fundamentais: ver, formular, encontrar e inscrever. O que muda entre tradições não é a presença desses gestos, mas a consciência que se tem deles.

Raros são os caminhos que integram conscientemente e estruturalmente essas quatro dimensõesO Śraddhā Yoga é um deles — não por acúmulo, mas por necessidade ontológica interna.

2026-04-13

Jīva e Ātman — A Unidade Silenciosa entre Vida e Ser

A Ontologia da Consciência Fractal na Bhagavad Gītā

Há perguntas que atravessam séculos sem perder a força. Talvez a mais antiga seja esta: como pode haver unidade se tudo que vemos é multiplicidade? Como pode o Ser ser uno, se cada vida é tão distinta? Como pode a consciência ser universal, se cada um percebe um mundo próprio?

Este capítulo nasce dessa interrogação — e propõe uma resposta que não pertence apenas à metafísica indiana, nem apenas à física contemporânea, mas ao ponto onde as duas convergem.

Desde tempos imemoriais, o ser humano pressente que há algo contínuo por baixo da mudança, algo silencioso por baixo do movimento, algo indestrutível por baixo dos nascimentos e mortes. A Bhagavad Gītā chama esse princípio de Ātman. A experiência humana chama de “eu”. A biologia chama de vida. A física, hoje, começa a chamá-lo de consciência fundamental.

2026-06-14

Ubuntu, Ṛta e Sintropia — O círculo vivo da pessoa relacional

O centro não pertence a ninguém; por isso pode acolher todos.
Há imagens que não ilustram uma ideia: elas a despertam.

Um círculo de crianças sentadas na grama. Os corpos formam uma circunferência viva; os pés, voltados para o centro, desenham quase um mandala involuntário. Ninguém ocupa o centro. Ninguém se ergue acima dos demais. Nenhum rosto domina a cena. O centro permanece aberto.

Essa abertura é decisiva.