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2026-01-07

As Quatro Dimensões do Śraddhā Yoga: Darśana, Svatantra, Saṃvāda e Saṃskāra

A Arquitetura Dinâmica do Śraddhā Yoga. O diagrama ilustra o fluxo perpétuo da tradição: a Visão (Darśana) ganha corpo na Forma (Svatantra), humaniza-se no Encontro (Saṃvāda) e eterniza-se no Tempo pelo Rito (Saṃskāra). Tudo orbita e se alimenta do centro ontológico: o Hṛdaya (Coração).

Todo caminho espiritual autêntico se organiza segundo quatro gestos fundamentais: ver, formular, encontrar e inscrever. O que muda entre tradições não é a presença desses gestos, mas a consciência que se tem deles.

Raros são os caminhos que integram conscientemente e estruturalmente essas quatro dimensõesO Śraddhā Yoga é um deles — não por acúmulo, mas por necessidade ontológica interna.

2025-07-13

Da disciplina quíntupla (pañca-aṅga) da Bhagavad Gītā aos três gestos de reparação (upalakṣaṇas) da Anu Gītā

Ahiṁsā, anutāpa, kṣamā — três flores
da mesma raiz do fogo do coração
.
“Sou a morada dos erros,
sem posses, sem direção.
Sê Tu o meio da minha salvação.”
(Anu Gītā, Mahābhārata, 14.16.17)

Este artigo aprofunda a compreensão da disciplina quíntupla (pañca-aṅga) do Śraddhā Yoga, denominada śraddhā-vṛtti,  à luz dos momentos de crise e queda, revelando os três gestos característicos (upalakṣaṇas) — ahiṁsā (inofensividade), anutāpa (arrependimento purificador) e kṣamā (a disposição interior de absorver, sem julgar ou se abalar, as turbulências externas) — do processo de reparação da perda do foco amoroso do coração.

2025-06-09

Anu Gītā — A Perda do Foco Absoluto, A Sabedoria da Retomada e o Ritmo de Viniyoga

Quando a chama se retrai,
o coração aprende a soprar as brasas:
śraddhā é o fogo que jamais se apaga.
Interlúdio: A Perda do Foco Absoluto

Ao abordar viniyoga como sintonia integral com a luz natural do coração, tocamos o ponto sensível do caminho: aquele em que a conexão com o foco se enfraquece, a luz parece se apagar, e o praticante experimenta a queda silenciosa da escuta interior. É nesse intervalo, onde a śraddhā vacila e a presença se dilui, que a Anu Gītā revela sua importância.

O texto a seguir interpreta esse momento como parte essencial do ritmo da retomada. Assim, antes de avançarmos para satya tyāga e upasthāna — os gestos de oferta e reintegração —, deixemo-nos conduzir pela sabedoria da pausa, da ausência e da escuta reacesa. É pela intimidade com o próprio eclipse que o sol interior reaprende a nascer.

SINOPSE

Este artigo retoma o fio invisível entre a Bhagavad Gītā e a Anu Gītā, interpretando a transição da revelação ardente à pedagogia da retomada. Por meio da śraddhā, da respiração e do viniyoga, delineia-se o caminho da restauração interior: do foco absoluto à disciplina viva do Śraddhā Yoga.

2021-07-06

A essência do Mahābhārata e da Bhagavad Gītā em 108 proposições

Mahābhārata1 estabelece a filosofia do coração em torno de quatro Puruṣārthas, ou poderes do coração, explicitados no próprio corpo do texto (MBh 1.2.83). No episódio da Bhagavad Gītā Arjuna mostra-se, inicialmente confuso, sem ânimo, motivação e coragem (śraddhā). Ele não sabe como resolver o seu dilema, elucidado por Krishna ao longo do texto. Krishna argumenta que, em cada instante, somos constituídos em conformidade com a nossa śraddhā (o sentimento sintrópico, a certeza interior e o altruísmo biológico, frutos do amor em ação), a bússola que orienta o desenvolvimento da nossa capacidade sintrópica de convergir, agindo com conhecimento e amor, para o coração. Como se dá este processo? Esta questão, introduzida no vídeo abaixo, está respondida nas 108 proposições discutidas a seguir. Dramatizada ao longo de todo o Mahābhārata, e conceituada no diálogo da Bhagavad Gītā, a Filosofia do Coração funda-se na escuta amorosa do sentimento sintrópico que expressa o nosso altruísmo biológico, ou  śraddhā. Este revela-se a partir do esforço de harmonizar as vias, contrárias e mutuamente excludentes, da ação e do conhecimento (jñānakarmasamuccaya-vāda). 

2020-11-22

Śraddhā Yoga: (IV) A meditação e a busca da verdade

O sábio vê em 3D o que o mundo percebe
de forma plana e polarizada.

Este texto é o quinto da serie de pequenos artigos adaptados do capítulo "A Fenomenologia da Consciência do Śuddha Yoga: ciência, espiritualidade, meditação e o surgimento de um novo paradigma", de minha autoria, que encerra o livro O Estudo da Consciência – Inovação Pessoal e Redes Sociais (Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2020).

Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta. (Jung)

Podemos explicar a arte e a ciência da meditação reveladas na Bhagavad Gītā tomando como ponto de partida a reflexão sobre o significado do praṇava[1] AUM no texto. O praṇava simboliza o modo conforme o universo (saṃsāra) se origina e permanece em Brahman. Esta verdade intuitiva (pratyakṣa) surge na mente (citta) quando controlamos e harmonizamos (nirodha) a sua atividade (vṛtti) por meio da prática de meditação. O iogue, de mente disciplinada, age no mundo harmonizando as posições contrárias (tese ou sañkalpa e antítese ou vikalpa) e estabelecendo novas sínteses (anukalpa). Ele compreende o simbolismo dialético do praṇava, onde se oculta a ciência do mundo e do Ser. Em sua busca da verdade ele se aproxima da resposta de três questões fundamentais da teoria do conhecimento: (1) o que é o Ser?; (2) como se pode alcançar o conhecimento verdadeiro sobre o Ser?; e (3) como ter certeza sobre a verdade de qualquer afirmação relativa ao Ser? Na Bhagavad Gītā, esse processo está associado à meditação. Meditar, nesse contexto, significa contemplar como o mundo se origina do Ser, como o contém e como está contido nele. Este é o simbolismo associado praṇava AUM.