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2026-05-28

Do Silêncio ao Mergulho

Śraddhā: o fôlego do Jīva
Do OṂ ao AUM, o Puruṣottama se manifesta;
no oceano da vida, o Jīva mergulha sustentado pelo fôlego de śraddhā.

Do OṂ ao AUM emerge o
Puruṣottama no universo manifestado.
Assim também se dá com o Jīva:
da condição silenciosa de śrāddha
nasce a confiança viva de śraddhā.

1. A constatação do ruído

O cenário contemporâneo apresenta-se como uma avalanche informacional ininterrupta.

Ao primeiro despertar, a mediação técnica das telas já impõe ao indivíduo um estado de prontidão permanente. Dezenas de estímulos sobrepostos — crises geopolíticas, disrupções tecnológicas, polarizações ruidosas, promessas de salvação técnica, anúncios de bem-estar e indignações instantâneas — disputam simultaneamente a atenção humana.

2026-05-19

Śrāddha e Śraddhā

O rito como pedagogia da continuidade

A morte retira a presença visível, mas não dissolve imediatamente o vínculo.

Quem parte deixa de estar disponível como corpo, voz, gesto cotidiano e presença concreta. Mas não desaparece simplesmente da vida dos vivos. Permanece como memória, dívida, gratidão, ferida, bênção, transmissão, pergunta. A morte muda a forma da relação; não a elimina de imediato.

É por isso que toda cultura humana precisou encontrar gestos diante dos mortos. Silêncio, fogo, água, alimento, pedra, palavra, canto, sepultamento, cremação, lamento, oração: todos esses gestos dizem, de modos diferentes, que a morte não é apenas fato biológico. Ela é também crise de continuidade.

O śrāddha nasce nesse ponto.

O Jīva e as Moradas Sutis

Morte, memória e śraddhā na continuidade do Real
A morte não explica o invisível: revela a orientação do jīva.
Quando a forma se desfaz, permanecem as moradas que a vida aprendeu a habitar.

A morte é o limite diante do qual toda doutrina se apressa.

Algumas querem descrever o invisível como se fosse território conhecido. Outras reduzem o mistério à dissolução física. Outras ainda transformam a esperança em sistema, o medo em crença, a perda em promessa. Mas o Śraddhā Yoga Darśana não precisa começar por uma cartografia do além. Começa por outro gesto: contemplar a continuidade do jīva a partir da experiência viva do corpo, da memória, do desejo, do discernimento e da presença.

2026-04-13

A DIGRESSÃO NECESSÁRIA

O Ser entre Nascimento e Morte, e o Par Śrāddha–Śraddhā
(O eixo ritualístico e interior do Mahābhārata e do Śraddhā Yoga Svatantra)
Bhīṣma entre śrāddha e śraddhā: a morte como rito, a vida como oferenda interior.

Epígrafe
“Assim como o Ser é eterno,
assim também é o ciclo das oferendas.
Pelo rito exterior mantém-se o mundo;
pela verdade do coração sustenta-se o dharma.”
Eco sintrópico do Bhīṣmaparvan


1. O Enigma do Ser que Nasce e Morre

Desde que o primeiro ser humano contemplou o corpo sem vida do outro, nasceu a pergunta que nenhuma metafísica, ciência ou ritual conseguiu eliminar:

O que nasce? O que morre?

2026-01-12

Os Saṃskāras — Arquitetura Ritual da Vida no Śraddhā Yoga

(Janma, Dīkṣā, Abhiṣeka, Vivāha, Mṛtyu, Śrāddha, Śraddhā)

Quatro portais, um eixo. Nascimento, iniciação, consagração e morte:
a arquitetura do Ser no tempo. Os saṃskāras não explicam a vida — eles a sustentam
.


Os Saṃskāras — A Inscrição do Real no Tempo

A vida não é uma sequência de eventos. É uma travessia consagrada. Cada nascimento, cada encontro, cada passagem, cada perda, cada morte é uma porta ontológicaE toda porta pede forma.

No Śraddhā Yoga, chamamos essas formas de saṃskāras.
Não como costumes. Não como folclore. Não como tradição morta.
Mas como a arquitetura ritual da vida quando o real quer ser vivido com consciência.

2025-11-30

KĀLA — O TEMPO COMO ESCALA ABSOLUTA: ENTROPIA, SINTROPIA E O RITMO DO REAL


(Ṛtadhvanī–Bhāṣya)

O tempo não é linha. Não é extensão. Não é sequência de instantes empilhados como contas de um rosário mecânico. O tempo, visto a partir do coração, não é medida — é escala. É o modo como a consciência respira.

Nota sobre Philip K. Dick e o tempo ortogonal

O escritor Philip K. Dick intuiu algo profundamente distinto do tempo linear: um “tempo ortogonal”, perpendicular à cronologia, onde passado, presente e futuro coexistem simultaneamente. Não como um mero acervo de registros, mas como uma dimensão viva do Ser.

Essa visão influenciou toda a contracultura ocidental justamente porque apontava para o que a física mecanicista não podia compreender: que o tempo pode ser não-extensional.

Contudo, no Śraddhā Yoga vamos além: aquilo que PKD chamou de “tempo ortogonal” não é um repositório de eventos, mas a sombra cultural de uma realidade mais alta — Kāla, o tempo absoluto.

2024-05-23

Despertando para a Consciência Sintrópica


Quem pensa que o céu é perto,
e nas nuvens quer pegar,
os Anjos ficam sorrindo,
da queda que vai levar!
(Gerônimo Santana)

Quando a realidade externa nos apresenta problemas, temos que entender que ela está nos contemplando com oportunidades de nos voltarmos sobre nós mesmos, para, a partir daí, lidarmos com o externo, que nada mais é que reflexo do interno. Essas ocasiões são sempre um convite para a compreensão ritualística de toda atividade humana, tal como ilustrado na Bhagavad Gītā. Na práxis sintrópica oferecemos como yajña o sacrifício do nosso ego, da nossa natureza inferior. E este yajña vem sempre acompanhado de tapas, ou da postura austera em palavras, pensamentos e atos, e de dāna, ou do exercício de doação de si mesmo, em nome da harmonia e do equilíbrio de toda a realidade. A luz gerada pela práxis sintrópica é capaz de dissipar as trevas que nublam as moradas interiores e exteriores de cada um, auxiliando-nos em nossa jornada.

2023-05-14

Entropia e Sintropia na Bhagavad Gītā e no Mahābhārata (III)


O que vem primeiro?

O que vem primeiro, a percepção profunda (bhāva; bhāvanā; anubhūti; anubhava), que se manifesta como sentimento ou o pensamento (cintā; cittavṛtti)? Segundo a Bhagavad Gītā, o sentimento tem precedência sobre o pensamento. Nós não somos movidos pelas ideias, mas sim pelos sentimentos. A vida é uma sucessão de sentimentos. Os conceitos podem ser apreendidos pelas máquinas. As pessoas pensam porque sentem, e não o contrário. São os sentimentos que acionam os pensamentos e as ações. Simbolizado na famosa expressão sânscrita OṂ (AUṂ), o sentimento de amor representa, segundo a epistemologia da Bhagavad Gītā, a semente original de todas as existências e a causa do próprio surgimento do universo, que teria se dado segundo a fórmula “Ekoham, bahusyam prajayeyeti” (Eu sou Um, tornar-me-ei também múltiplos seres), discutida na Chāndogya Upaniṣad. Assim, o universo teria surgido do sentimento amoroso, expressão da vontade criadora no ser humano, manifestada como consciência sintrópica (espírito), mente (matéria) e alento vital (energia).

Entropia e Sintropia na Bhagavad Gītā e no Mahābhārata (II)


Vida contra a Morte:
a questão central do Mahābhārata 

Há algo em comum no modo conforme os grandes seres enfrentam certas questões cruciais, face à própria morte. Sócrates, condenado à morte por envenenamento, vê na cicuta (veneno) o medicamento que lhe traria a libertação final de sua alma. Toma a cicuta em paz porque tem certeza de que vivera de forma coerente. Em comparação com a sua determinação de avançar em direção à verdade, a sua própria necessidade de se autodefender desaparece. De igual modo, Jesus, no tribunal romano, cala-se ao ser perguntado se era o rei dos judeus. Bastaria que negasse a acusação e estaria livre, conforme as regras jurídicas vigentes na época. Entretanto, prefere a morte, que fica como testemunha das verdades que professou. Ambos parecem entender a morte apenas como morte do ego, o princípio material de organização do indivíduo. 

Entropia e Sintropia na Bhagavad Gītā e no Mahābhārata (I)

O que é a vida?
Não são as ondas, mas o mar...
Nascemos e morremos no oceano da vida.

INTRODUÇÃO:
O estabelecimento dos fundamentos da filosofia sintrópica e da sua práxis

Este artigo trata da epistemologia e teoria da verdade da Bhagavad Gītā e das suas consequências para o mundo moderno. Toma como ponto de partida algumas ponderações feitas na tese "Śraddhā in the Bhagavad Gītā" (2007), desenvolvida no Instituto de Ciências Sociais da McMaster University e reconhecida (2009) como uma tese de doutorado em filosofia (ver parecer) pela Comissão Especial de Revalidação de Certificados e Diplomas de Pós-Graduação do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), constituída pelos professores Dr. Fernando José de Santoro Moreira, Dr. Franklin Trein e Dr. Gilvan Luiz Fogel.

2018-12-18

As Correntes Noúricas de Pensamento: dos Vedas até o Manuscrito do Purgatório e a ciência moderna

Quando se olha para o céu, tem-se um sentimento de unidade
que encanta e dá vertigem. (Ferdinand Hodler)
Na serie de artigos que compõem este capítulo introduzo a discussão sobre o estado de sonho e a sua relação com as correntes superiores de pensamento, implícitas, tanto no conceito védico de “Ṛṣi-nyāsa”, como no conceito das “noúres”. Este termo foi cunhado por Pietro Ubaldi a partir de duas palavras gregas, "nous" (pensamento) e "rhéo" (fluir), para expressar aquilo que os filósofos chamam sentimento intuitivo; os artistas, de inspiração; os religiosos de revelação e mediunidade; os xamãs, de estados alterados de consciência e percepção1

Segundo a lei universal da ressonância e da afinidade espiritual (Ātma-śakti dharma, fundada no funcionamento de tejas e śraddhā), que se encontra na base da ciência do espírito, podemos, tanto contagiar aos demais, como nos deixar contagiar pelos seus diferentes estados de ânimo. A mente humana é capaz de vibrar e de entrar em sintonia e ressonância com diversas correntes psíquicas, as quais dão origem a uma enorme gama de emoções, sentimentos e pensamentos. Daí a importância dos mantras, das orações e das disciplinas espirituais que nos convidam a elevar o nosso estado da alma, para que ela possa se nutrir dos nobres ideais e valores vividos por aqueles que alcançaram os planos superiores da consciência. Ṛṣi-nyāsa2 representa, basicamente, a disciplina de internalização e incorporação (nyāsa) do ideal de unificação com a esfera dos seres divinos e santos (Ṛṣi), tornando-nos aprendizes das hostes celestiais e instrumentos, portanto, da vontade cósmica. De acordo com a literatura sagrada da Índia, Ṛṣi-nyāsa representa a ancestral técnica védica utilizada pelos Rishis (videntes) na elaboração de textos sagrados, manifestando-se, em suma, como a capacidade de fazer de toda atividade humana um meio de acesso à energia sintrópica (brahma-śakti). No Ṛgveda esta energia aparece personificada como a deidade Śraddhā; no Mahābhārata, como Durgā, a encarnação do aspecto de invencibilidade da divindade. Tanto o Ṛgveda como o Mahābhārata nascem como expressão e consequência de Ṛṣi-nyāsa, que encontram, então, no diálogo entre Krishna e Arjuna na Bhagavad Gītā a sua representação paradigmática.