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2022-08-28

O significado da Gītopadeśa

Como reconhecer a verdade e os mestres? Como alcançar a percepção do Ātman? A Bhagavad Gītā expressa esse método de reconhecimento que, a um só tempo, valida e transcende o antigo método védico, fundado: (1) na escuta (śravaṇa), (2) na reflexão (manana) e (3) na reiteração meditativa da reflexão (nididhyāsana).

A figura conhecida como Gītā-Upadeśa, ou melhor, Gītopadeśa, revela a essência da Bhagavad Gītā. O entendimento de que espiritualidade representa algo que transcende a mera esfera religiosa é a marca característica da Gītopadeśa. Ela mostra a Bhagavad Gītā como expressão da metáfora da unificação dos dois pássaros descritos no Ṛigveda (1.164.20), na Muṇḍaka Upaniṣad (3.3.1) e na Māntrika Upaniṣad. Expressa, portanto, como desenvolver o discernimento, ou a visão espiritual (Divyacakṣus), por meio da arte e da ciência da meditação. A Gītopadeśa mostra o Senhor Krishna e Arjuna sentados na quadriga puxada por quatro corcéis brancos. A quadriga simboliza a mente e o corpo humano; Arjuna, a consciência individual (o “si mesmo”, o ser individual, o jīva) condicionada pelo processo objetivo do mundo (saṁsāra); e Krishna, o Espírito que exerce o controle das rédeas, ou da mente emocional (com jurisdição sobre os sentidos). Quando o ser individual (Arjuna, Nara) se deixa dirigir pelo Supremo Espírito (Krishna, Nārāyaṇa), presente em si mesmo, avança pelo caminho que nos conduz do saṁsāra ao nirvāṇa. Esta metáfora, conhecida como Gītopadeśa, representa a síntese da Bhagavad Gītā a partir de sete versos (conhecidos como Saptaślokī Gītā ou a Gītā de Sete Versos: BhG 2.2, BhG 2.3, 2.11, 18.61, 18.62, 18.64 e 18.66). 

2018-12-04

Ṛṣi-nyāsa: a perfeita alegria de ser, antes de fazer e dizer

Quando Nara se deixa conduzir por Nārāyaṇa, a quadriga da mente avança do saṃsāra ao nirvāṇa.
A Invocação e a internalização de uma divindade arquetípica é conhecida na literatura sagrada como Ṛṣi-nyāsa1. O termo "Ṛṣi" costuma ser traduzido como "sábio, vidente, aquele que vê a verdade". "Nyāsa", em geral, significa "entrega, confiança, colocação, depósito". A compreensão completa de nyāsa vem por meio da experiência pessoal e da prática espiritual. "Ṛṣi-nyāsa" costuma ser traduzido como "a invocação de bençãos aos sábios", ou "a confiança nos sábios", de uma dada tradição espiritual de mestre para discípulo (Guruśiṣyaparamparā). Contudo, Ṛṣi-nyāsa significa mais do que um ato de reverência e reconhecimento da autoridade espiritual dos preceptores espirituais de uma dada tradição. Não se trata, simplesmente, de fazer invocações para entrar em contato com a sabedoria e as bençãos acumuladas ao longo das eras, ou de recitar mantras e  realizar rituais (yajñas). No contexto do Śuddha Yoga, conforme ensina a tradição (Paramparā) de aprendizagem (Praśiṣya) dos discípulos (Ṡiṣya) dos grandes mestres da hierarquia espiritual (Ṛṣi–Praśiṣya–Śiṣya–Paramparā), somente aqueles que se dedicam ao aprendizado de ver em todos os seres  um instrutor2 (guru) podem, de fato, experimentar, para além da realidade objetiva, de Ṛṣi-nyāsa.

2021-10-11

No silêncio deste dia que amanhece . . .

 Meditação Guiada do Śraddhā Yoga Darśana

Nota de alinhamento

Este texto pertence ao pequeno corpo litúrgico da Dinacaryā do Śraddhā Yoga Darśana. Sua função é abrir o dia como estado interior do hṛdaya: antes de qualquer tarefa, decisão ou prática formal, o coração recolhe-se, escuta e se alinha à ordem viva de Ṛta.

Aqui, a disciplina não aparece ainda como exposição doutrinal, mas como gesto inaugural: despertar, respirar, reverenciar, entregar-se à escuta e permitir que a luz de śraddhā organize o olhar, a palavra e a ação. Por isso, os mantras que aparecem neste texto devem ser lidos como formas de preparação e retomada do eixo, em continuidade com a disciplina quíntupla da śraddhā-vṛtti: viniyoga, saṃkalpa, ṛṣi-nyāsa, satya-tyāga e upasthāna.

OṂ MITRADEVĀYA NAMAḤ • ṚTADHVANĪ SVĀHĀ sela essa abertura como comunhão: Mitra recorda a amizade universal; Ṛtadhvanī consagra a escuta da ordem viva do Real; svāhā oferece a palavra e o dia ao fogo do coração.

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No silêncio sagrado de cada amanhecer, renovamos o propósito sintrópico, expresso no Ṣaṭkarman (os Seis Deveres Diários) — caminho que transforma a vida inteira em meditação. Aqui, heartfulness manifesta-se no brilho do olhar, expressão visível da luz que se irradia do coração alinhado ao Ser.

2026-04-25

O Yantra Svāhā

Genealogia dos Mantras do Śraddhā Yoga
(da semente à árvore, da árvore à semente)
Prelúdio: O Praṇava — OṂ como Fonte

Antes da semente, há o campo. Antes da oferenda, há a vibração primordial na qual toda oferenda se torna possível.

OṂ não é ainda um gesto, nem uma fórmula, nem uma direção da prática. É o Praṇava, o som-fonte: a matriz silenciosa de onde emergem mantra, respiração, rito e mundo. Nele, o Real ainda não se desdobrou em caminho; repousa como plenitude indivisa.

2020-04-05

Heartfulness – Meditação Guiada

Yantra do Amigo Celeste
Nota de desambiguação. Neste roteiro, “heartfulness” designa a prática contemplativa do hṛdaya no Śraddhā Yoga Darśana, não filiação institucional ao movimento contemporâneo homônimo. Aqui, o termo indica a recondução da respiração, da atenção, do mantra e da oferenda ao coração lúcido.
Esta prática pertence ao pequeno corpo litúrgico da Dinacaryā do Śraddhā Yoga Darśana1. Sua função é abrir o dia como estado interior do hṛdaya: antes de qualquer tarefa, decisão ou prática formal, o coração recolhe-se, escuta e se alinha à ordem viva de Ṛta.

À luz do ensaio “O Despertar Ontológico”, esta meditação guiada deve ser compreendida como o desdobramento formal de um gesto mais originário: o recolhimento da consciência no instante anterior à captura pelo primeiro pensamento. Quando esse reconhecimento ocorre espontaneamente ao despertar, o dia já nasce do eixo. Quando a dispersão já se instalou, a prática formal reconduz a respiração, a mente e a ação ao foco absoluto do coração.

2016-09-26

Os Três Níveis da Prática Coletiva de Heartfulness

A Arte e a Ciência da Meditação segundo a Bhagavad Gītā
Apresentamos a seguir o roteiro da prática coletiva de Meditação Heartfulness, conhecida como "As Três Dhyānas". Esta prática pode ser adaptada, ou resumida, e incluída em nossa rotina diária. O ideal é que ela seja realizada logo após o asseio matinal, durante o Brahma-Kāla (período de Brahman: entre as 02h00 e as 06h00), período que antecede o nascer do sol, em um local adequado, limpo e especialmente decorado para esta finalidade. Aqueles que quiserem, podem preparar o ambiente fazendo uso de mantras e canções elaboradas, especialmente, para esse fim.

As Três Dhyānas

INÍCIO (Sete toques no gongo. A voz firme, forte, clara, harmoniosa e agradável. Deixar certo intervalo entre cada frase, para que todos tenham tempo de assimilá-las.)

2016-10-13

Satya Tyāga: a arte de despertar para a consciência sintrópica


Satya Tyāga representa, tanto a renúncia (samnyāsa) de todas as coisas que impedem a consagração (tyāga) de si mesmo à Vontade Suprema, como a dedicação plena às verdades (satya) experimentadas nesta relação de aproximação à Consciência Sintrópica Universal.

Conforme exposto no puro e ancestral Śraddhā Yoga de que trata a Bhagavad Gītā, devemos nos consagrar (tyāga), de coração, ao exercício de ver em cada minúscula ação uma oportunidade de disciplina interior (tapas), sacrifício (yajña), e doação (dāna) de si mesmo. Este puro yoga, que quita as três dívidas espirituais (débito com a esfera das deidades das quais herdamos a nossa própria identidade espiritual; débito com os sacerdotes, gurus, sábios e santos que nos deixaram como herança cultural o conhecimento espiritual; e débito com os nossos ancestrais, que possibilitaram o nosso nascimento neste mundo), funda-se nas cinco formas do pensamento sintrópico, derivadas de śraddhā (a bússola do processo de meditação): Saṃkalpa, Ṛṣi-nyāsa, Viniyoga, Satya Tyāga e Upasthāna. Esta base quíntupla de śraddhā, que expressa os cinco pilares do dharma, orienta a disciplina quíntupla do pensamento  (cintā; pronuncia-se “tchintaa”):

2022-06-12

ṚTADHVANĪ: A SÍNTESE DO ŚRADDHĀ YOGA SVATANTRA

Nota de alinhamento — Síntese litúrgico-cosmológica da Dinacaryā

Este texto ocupa, no Interlúdio Prático, a função de síntese: recolhe a porta devocional do amanhecer, a disciplina quíntupla da śraddhā-vṛtti e a visão do dia como mandala viva de Ṛta. Aqui, Dinacaryā (pronúncia aproximada: di-na-tcha-ryá) não significa simples rotina espiritual, mas participação consciente no ritmo do Real: o praticante aprende a caminhar no tempo como quem escuta a respiração de Brahman.

O eixo desta síntese é Ṛtadhvanī: a ressonância interior da ordem viva do cosmos. Por meio dela, OṂ, Haṃsa, śraddhā-vṛtti, Ṣaḍ-kāla e práxis sintrópica deixam de aparecer como elementos dispersos e se revelam como modulações de uma mesma disciplina do coração. A vida diária torna-se, assim, campo de escuta, aplicação, oferenda e presença.

Lido em continuidade com os textos anteriores deste Interlúdio Prático, este ensaio mostra como a disciplina deixa de ser obrigação e se torna aliança espiritual: o dia é consagrado, a respiração é educada, a ação é purificada, e o coração reaprende a reconhecer Ṛta em cada período do tempo.
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A disciplina sintrópica (caryā) diária (dina) do Śraddhā Yoga consiste em responder ao chamado do universo a partir do foco absoluto no coração — fonte de śraddhā, energia espiritual que traz clareza interior, bom senso e lucidez amorosa à ação. Do coração irradia a luz da śraddhā; na mente clarificada, ela se torna eixo de consciência e ética.

Essa resposta não acontece em um tempo amorfo, mas pulsa na arquitetura viva dos seis períodos sagrados do dia (Ṣaḍ-kāla). Cada amanhecer, meio-dia, entardecer e noite carrega uma qualidade própria da śakti do Tempo, convidando o praticante a viver a disciplina não como lista de tarefas, mas como participação consciente na mandala temporal do universo. A dinacaryā é, assim, o modo humano de caminhar dentro do Ṣaḍ-kāla: ajustar a respiração, a intenção e o gesto à respiração maior de Brahman.

No silêncio do amanhecer, com os olhos suavemente fechados, voltamos a atenção ao Ājñā Chakra — sede do foco impecável —, onde Iḍā e Piṅgala convergem e a dualidade se recolhe. Ali meditamos no Ātman como puro Espírito, e em sua pulsação viva, Brahma-Śakti, o dinamismo interior do Ser, manifesto como śraddhā — poder amoroso de Śrī Yoga Devī —, em miríades de jīvātmans que permeiam todas as camadas do cosmos.

O início e o selo da Dinacaryā – disciplina que reacende em nós o fluxo de Ṛta, a ordem viva do cosmos, ao longo dos seis tempos do dia – se dá através de um mantra que desperta a consciência relacional do ser:

OṂ MITRADEVĀYA NAMAḤ • ṚTADHVANĪ SVĀHĀ
quando a disciplina deixa de ser obrigação e se torna aliança espiritual 

Neste selo de comunhão, Mitradevāya invoca o Amigo Celeste (Mitradeva) — princípio universal da amizade divina que dissolve o isolamento do eu — enquanto Ṛtadhvanī consagra o som interior do Ṛta, a vibração que alinha o jīva ao ritmo cósmico. A expressão final svāhā sela a entrega do mantra como oferenda silenciosa, fazendo da palavra um gesto de alinhamento e confiança.

Assim, a Dinacaryā não começa apenas com uma recitação, mas com uma abertura relacional em que o jīva se coloca em ressonância com o ritmo do cosmos e o sopro do Infinito.

Ao entoar (ou silenciar) este mantra ao amanhecer, selamos nossa respiração com o ritmo do Ṛta e iniciamos a jornada diária como quem caminha acompanhado pela vibração do Ser. A disciplina deixa então de ser obrigação e se torna aliança espiritual — e a respiração converte-se no veículo da consciência sagrada que pulsa em nós.

2026-04-28

OṂ ṚTADHVANĪ SVĀHĀ e a Śraddhā-vṛtti

A disciplina quíntupla da retomada sintrópica
Śraddhā-vṛtti: a disciplina quíntupla da retomada sintrópica — viniyoga, saṃkalpa, ṛṣi-nyāsa, satya-tyāga e upasthāna — condensada na fórmula OṂ ṚTADHVANĪ SVĀHĀ.
Nota de alinhamento — A fórmula-síntese da disciplina quíntupla

Este ensaio explicita o eixo prático da śraddhā-vṛtti: a disciplina quíntupla pela qual a consciência dispersa retorna ao hṛdaya e reencontra sua consonância com Ṛta. Seus cinco gestos — viniyoga, saṃkalpa, ṛṣi-nyāsa, satya-tyāga e upasthāna — não são técnicas separadas, mas modos complementares de uma mesma retomada sintrópica.

Nesse contexto, OṂ ṚTADHVANĪ SVĀHĀ não deve ser lido apenas como mantra de viniyoga, embora nele o viniyoga encontre sua forma mais imediata: escutar o instante, discernir a aplicação justa e oferecer a ação ao Real. A fórmula é, antes, o selo condensado da disciplina inteira: OṂ abre o campo; ṚTADHVANĪ nomeia a escuta da ordem viva; SVĀHĀ consagra a entrega da vida como ritual.
A correspondência mântrica completa aparece de modo mais litúrgico no texto, “No silêncio deste dia que amanhece...”, onde a prática diária apresenta o Śaraṇāgati Mantra, o Ācārya-paramparā-vandanam, OṂ NAMO NĀRĀYAṆĀYA e o Dhyāna Mantra Haṃsa. O presente ensaio oferece a chave doutrinal para lê-los: o Śaraṇāgati Mantra purifica o saṃkalpa; o Ācārya-paramparā-vandanam sustenta o ṛṣi-nyāsa; OṂ NAMO NĀRĀYAṆĀYA orienta o satya-tyāga; e o Dhyāna Mantra Haṃsa amadurece o upasthāna como presença respirante do Ser.
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OṂ ṚTADHVANĪ SVĀHĀ é a fórmula mínima do alinhamento com o real. Ela não deve ser compreendida apenas como mantra devocional, nem como fórmula ritual no sentido exterior do termo. Seu sentido mais profundo é prático, ontológico e respiratório: ela condensa, em uma única vibração, o gesto pelo qual a consciência dispersa retorna ao eixo do Hṛdaya.

OṂ abre o campo.
ṚTADHVANĪ nomeia a escuta da vibração de Ṛta, a ordem viva do real.
SVĀHĀ consagra a entrega: transformo a vida em ritual.

2022-12-17

Śraddhā Yoga e a Estrutura da Meditação: Bhāvanā, Dhyāna e Bhāvana

Não importa a pergunta. O amor é a resposta do Ser.
Introduzimos a discussão sobre as origens e o desenvolvimento da arte e da ciência da meditação a partir da reflexão de Krishna na Bhagavad Gītā sobre o significado do praṇava1 AUṂ. Foi este pressuposto que nos permitiu formatar a nova disciplina sobre a contemplação a partir de três metáforas e três mantras principais: (1) a metáfora dos dois pássaros; (2) a metáfora do cisne; (3) a metáfora da quadriga; (4) o mantra AUṂ (OṂ); (5) o mantra Haṃsa; e (6) o mantra OṂ NAMO NĀRĀYAṆĀYA. 

O praṇava AUṂ simboliza o modo conforme o universo (saṃsāra) se origina e permanece em Brahman. Ele condensa o conteúdo dos principais aforismos (mahāvākyas) da literatura védica, em especial, aqueles que constam da Chāndogya Upaniṣad: “sarvaṃ khalv-idaṃ brahma” – "Tudo isto é o Ser" (ChU 3.14.1) e “Tat tvam asi ” – “Tu próprio és o Ser" (ChU 6.8.7), que fundamentam a estrutura epistemológica dos argumentos de Krishna no texto.

2018-12-08

Mahā Saṃkalpa a precedência de Śreyas (anseios altruístas) sobre Preyas (anseios passionais)



"Trate as pessoas como se elas fossem o que poderiam ser
e você as ajudará a se tornarem aquilo que são capazes de ser."
(Goethe)

"Aos outros, dou o direito de serem como são;
a mim, o dever de ser cada dia melhor".
(Chico Xavier)

A disciplina espiritual e sintrópica do Śraddhā Yoga, transmitida por Krishna a Arjuna na Bhagavad Gītā e velada no Dhyāna Mantra, compõe-se de três partes fundamentais: Bhāvana (a escuta do Ser e a contemplação da unidade sintrópica), Karma/Kriyā (a práxis sintrópica) e Dhyāna (a meditação). Antes de cada amanhecer, o praticante busca alinhar-se em estado de harmonia e unidade (Bhāvana) com a grande lei cósmica (Ṛta), de modo que sua atividade (Karma/Kriyā) ao longo do dia, em qualquer ambiente, contribua para a harmonização do mesmo. A meditação (Dhyāna), ancorada na consciência do sagrado (Bhāvana) e unificada na práxis sintrópica (Naiṣkarmya), pavimenta um caminho que gradualmente transforma a vida em uma forma contínua de meditação, dedicada ao aprimoramento e ao aprofundamento da comunhão com a unidade sagrada da vida.

2026-04-24

OṂ ṚTADHVANĪ SVĀHĀ (II)

A fórmula mínima do Śraddhā Yoga Darśana
A ressonância de Ṛta no coração — vida como ritual.
OṂ ṚTADHVANĪ SVĀHĀ

entro em sintonia com a ordem viva do real (ṚTADHVANĪ); transformo a vida em ritual (SVĀHĀ).

Este mantra exprime a forma mais condensada do Śraddhā Yoga Darśana. Não se trata de uma técnica, nem de um exercício devocional no sentido habitual. Trata-se de uma postura ontológica: viver em sintonia com a ordem viva do real e responder a ela como oferenda.

2025-08-13

Os Cinco Aspectos da Práxis Sintrópica e os seus Mantras



Haṃsaḥ śāntiḥ śraddhāyāḥ.
Haṃsa, a respiração do Ser,
é a paz do amor em ação.

A disciplina sintrópica do Śraddhā Yoga é um circuito de cinco gestos que estabiliza o coração com  Ṛta: começa no saṃkalpa (o voto que orienta), consagra-se em ṛṣi-nyāsa (a internalização  reverente de um arquétipo da linhagem sagrada), aplica-se em viniyoga (a prática continuamente ajustada às necessidades do momento presente — seja no retorno após uma pausa, seja na personalização atenta), purifica-se em satya tyāga (a dedicação verídica às verdades [satya] experimentadas na aproximação à Consciência Sintrópica Universal) e se mantém em upasthāna (a presença sustentada, que faz de cada minúscula ação uma meditação). Não são etapas estanques: são órbitas que se reforçam mutuamente. O eixo respiratório (haṃsa/so’ham) dá ritmo às passagens; o mantra acende a memória do real; a ação retorna à fonte. Quando o gesto inteiro vibra na mesma clave — propósito, consagração, aplicação, renúncia e presença — a paz não é pausa: é paz em movimento, a clareza que age por amor.

2026-06-13

O Despertar Ontológico

A Sādhana do Instante e a Meditação no Instante
Sempre que os sentidos se recolhem ao eixo, o Real oferece um novo despertar.
Há um instante quase invisível entre o sono e o dia.

Antes que os olhos se abram plenamente, antes que a mente recupere suas tarefas, antes que o nome, a biografia, as preocupações e os desejos reassumam o comando, algo já está presente. Não é ainda pensamento. Não é ainda decisão. Não é ainda vontade. É a presença nua da consciência antes de ser capturada pelo mundo.

Esse instante é breve. Às vezes parece menor que um segundo. Chamamos aqui, por imagem, de “milissegundo”: não uma medida cronológica exata, mas a indicação de que algo decisivo ocorre antes que a mente se reorganize e reassuma, quase automaticamente, o governo da atenção.

Esse limiar possui valor decisivo: nele, o dia pode nascer a partir do automatismo das vāsanās ou a partir do reconhecimento silencioso do hṛdaya, o coração espiritual profundo onde reside a centelha divina como espírito (antaryāmin).

2026-06-16

Heartfulness — A Sādhana do Instante e a Disciplina Formal do Hṛdaya

Retorno, aprofundamento e vida contemplativa no eixo do hṛdaya
Entre o instante que desperta e a disciplina que recolhe, o hṛdaya permanece como eixo.
Nota de desambiguação. Neste portal, conforme desenvolvido ao longo dos ensaios do Śraddhā Yoga Darśana, “heartfulness” é usado em sentido próprio: a partir da leitura contemplativa da Bhagavad Gītā e do hṛdaya como centro cognitivo e ontológico da consciência. O termo não designa filiação institucional ao movimento contemporâneo homônimo. Aqui, heartfulness nomeia a recondução da atenção, da respiração, do pensamento, da palavra e da ação ao coração lúcido, onde śraddhā reconhece a presença orientadora do Real antes de sua tradução pela mente.
Heartfulness, no Śraddhā Yoga Darśana, não é apenas “meditar no coração”. Também não é uma técnica de interiorização afetiva, nem uma variante devocional de práticas meditativas já conhecidas.

Heartfulness é a vida reconduzida ao hṛdaya.

O coração, aqui, não designa emoção, sentimentalidade ou intuição vaga. Hṛdaya é o centro cognitivo e ontológico da consciência: o lugar interior onde o Real é reconhecido antes de ser explicado. A mente pode depois discernir, organizar e agir; mas sua função própria é traduzir, não substituir, essa orientação originária.

2025-05-19

Meditação, Heartfulness e Contemplação — O Eixo do Ser no Śraddhā Yoga

A roda gira; o eixo permanece. Heartfulness reconduz a consciência ao centro.
***
De mindfulness a kindfulness,
até chegar ao heartfulness — a bússola interior,
que conduz a mente de volta ao coração,
 onde brilha o eixo do Ser.
***
Nota de desambiguação. Neste portal, “heartfulness” é um termo operativo enraizado em hṛdaya, o coração compreendido como centro cognitivo e ontológico da consciência. Pode ser aproximado, em linguagem sânscrita interpretativa, de hṛdayatā — a qualidade ou condição do coração —, mas não é apresentado como tradução histórica de um termo técnico védico ou épico. Aqui, heartfulness nomeia a recondução da atenção, da respiração, do pensamento, da palavra e da ação ao coração lúcido, onde śraddhā reconhece a presença orientadora do Real antes de sua tradução pela mente.
Antes de distinguir técnicas, é preciso distinguir planos. Nem toda meditação é contemplação, embora toda contemplação atravesse a meditação. No vocabulário do Śraddhā Yoga, chamamos “meditação” ao trabalho disciplinado de manas; “heartfulness”, à transfiguração desse foco quando a inteligência espiritual, buddhi, começa a conduzir; e “contemplação”, à estabilização no eixo do Ser, Ātman, quando a consciência deixa de girar na roda das experiências e passa a habitar o centro imóvel.

2016-09-29

Viniyoga: a sintonia integral com a luz natural do coração


A expressão "viniyoga" evoca a ideia de adaptação e individualização da disciplina espiritual, permitindo que a prática seja retomada a partir do ponto em que o praticante parou, respeitando suas condições atuais e favorecendo uma progressão gradual e consciente.

Sua etimologia pode ser assim compreendida: "vi"- expressa diferenciação, adaptação; "ni"- remete à ideia de intensificação; "yoga"- significa integração, conexão ou união. A justaposição dos prefixos "vi" e "ni" intensifica a noção de aplicação diferenciada e adaptativa, realçando a importância de personalizar a prática do yoga para atender às necessidades singulares de cada pessoa. Assim, viniyoga pode ser traduzido como “aplicação diferenciada da disciplina espiritual” ou “adaptação do yoga ao indivíduo”.

2023-04-03

AS BASES DA ARTE E DA CIÊNCIA DA CONTEMPLAÇÃO: do conceito védico de Ṛta ao contemporâneo conceito de Sintropia

I. O Observador e a Testemunha (Sākṣī)

A arte e a ciência da contemplação desenvolvem-se em torno da compreensão da relação entre o observador e a coisa observada. No pequeno texto medieval Dṛg-Dṛśya-Viveka, atribuído por alguns a Adi Śaṅkarācārya, temos a seguinte descrição do observador e da coisa observada:

Quando a forma é o objeto de observação, então os olhos são o observador; quando os olhos são o objeto de observação, então a mente é o observador; e quando as modulações mentais são o objeto de observação, então o Espírito, a Testemunha (Sākṣī), se revela o verdadeiro observador.

2018-05-27

CMT 014 - Oficina de Estudos: a Arte e a Ciência da Meditação

Destinada a introduzir o aspirante aos segredos e às chaves para a compreensão da realidade sintrópica, a disciplina "CMT 014 - Oficina de Estudos: a Arte e a Ciência da Meditação", oferecida no Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza da UFRJ explora os grandes tópicos associados ao surgimento e ao desenvolvimento histórico da arte e da ciência da meditação ou contemplação. Diferencia-se, deste modo, das demais experiências realizadas até aqui em torno da ciência da meditação, em instituições como a UNIFESP, UFF e o próprio Centro de Ciências Médicas da UFRJ, que apresentam uma ênfase, não na história e constituição da arte e da ciência da meditação, mas, basicamente, em sua eficácia enquanto uma prática integrativa, ou “técnica terapêutica", complementar aos demais procedimentos da área de saúde.

2024-04-05

Uma Interpretação Sintrópica da Bhagavad Gītā: A Ponte Entre Ciência e Espiritualidade

O conceito de sintropia (tendência em direção à ordem; o contrário da entropia), cunhado por Albert Szent-Györgyi em 1974, assume cada vez mais relevância na busca por pontes entre ciência e espiritualidade. Este ensaio propõe uma interpretação sintrópica da Bhagavad Gītā, revelando uma convergência entre a sabedoria milenar do texto indiano e a ciência moderna. Essa abordagem inovadora se torna possível ao considerarmos a quadriga presente na Bhagavad Gītā, onde se encontram Arjuna e Krishna, como uma representação da metáfora dos dois pássaros, descrita no Ṛg Veda. Essa compreensão permite estabelecer um eixo sintrópico capaz de abarcar a história, a arte e a ciência da meditação, e a gestão de processos, do meio ambiente e das pessoas.