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2024-12-22

Além de Kant: Integrando Razão e Sentimento na Busca por uma Ética Sintrópica

1. Introdução: A Busca por uma Nova Fundamentação da Moralidade

O debate sobre a fundamentação da moralidade e a relação entre razão e sentimento permanece um tema central na filosofia. Immanuel Kant, com seus imperativos categórico e hipotético, ergueu um sistema ético, que buscava a universalidade e a objetividade, aspirando libertar a moralidade de dogmas religiosos e idiossincrasias individuais. A abordagem kantiana, apesar de inovadora, apresenta limitações ao desconsiderar a importância do "sentimento sintrópico", chamado de "śraddhā" em sânscrito, como fundamento da ética.

2025-07-28

Foco Absoluto do Coração: Aforismos para a Alta Performance Integrada

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 Do coração que confia, nasce o foco autêntico e a maestria silenciosa. Este ensaio não oferece uma tese, mas desenha um caminho por entre sutilezas, onde o sentido emerge em vez de se impor. A intenção não é convencer, mas irradiar, agindo como um tecido vivo de palavras que revela fragmentos soltos, para que o leitor una os pontos. Cada aforismo é uma respiração, e cada comentário, um gesto contemplativo. O conjunto não se prova, mas se experimenta, pois cada aforismo é uma chave para abrir um espaço interior, e cada espaço revelado é um retorno ao Ser.

2020-10-31

Śraddhā Yoga: (III) A fides e o cogito

Este texto é o quarto da serie de pequenos artigos adaptados do capítulo "A Fenomenologia da Consciência do Śuddha Yoga: ciência, espiritualidade, meditação e o surgimento de um novo paradigma", de minha autoria, que encerra o livro O Estudo da Consciência – Inovação Pessoal e Redes Sociais (Rio de Janeiro: Editora Ciência Moderna, 2020).

A experiência fenomenológica de Arjuna é ainda algo muito pouco explorado. Esta experiência retrata como o desenvolvimento de śraddhā corrige e atualiza o seu entendimento védico da realidade, conduzindo-o ao encontro consigo mesmo, no coração. Em função do caráter mais sectário e dogmático da literatura devocional dos Purāṇas e do próprio hinduísmo, o conceito designado por śraddhā sempre teve a sua importância ofuscada por bhakti (devoção, fé). Nesses textos a importância da ação costuma ser desprezada e bhakti aparece como o principal veículo para a salvação. Estabeleceu-se, desta forma, a leitura ainda corrente da Bhagavad Gītā que insiste em desconsiderar a real função teológica de śraddhā no texto. Daí a opção frequente de se privilegiar bhakti e traduzir śraddhā como “fé”, tal como ainda se vê em muitas traduções[1]. É śraddhā que explica a mudança de estado de ânimo de Arjuna e a sua consequente decisão de acolher o conselho de Krishna. No contexto da Bhagavad Gītā, portanto, śraddhā é mais importante e central que bhakti, porque se apresenta como condição suficiente para resolver o dilema de Arjuna (TURCI, 2007a).

2023-05-14

Entropia e Sintropia na Bhagavad Gītā e no Mahābhārata (I)

O que é a vida?
Não são as ondas, mas o mar...
Nascemos e morremos no oceano da vida.

INTRODUÇÃO:
O estabelecimento dos fundamentos da filosofia sintrópica e da sua práxis

Este artigo trata da epistemologia e teoria da verdade da Bhagavad Gītā e das suas consequências para o mundo moderno. Toma como ponto de partida algumas ponderações feitas na tese "Śraddhā in the Bhagavad Gītā" (2007), desenvolvida no Instituto de Ciências Sociais da McMaster University e reconhecida (2009) como uma tese de doutorado em filosofia (ver parecer) pela Comissão Especial de Revalidação de Certificados e Diplomas de Pós-Graduação do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), constituída pelos professores Dr. Fernando José de Santoro Moreira, Dr. Franklin Trein e Dr. Gilvan Luiz Fogel.

2019-01-01

Movimentos de Convergência: (3) Heidegger

1. A  Filosofia como a História do Ser

Luiz Carlos Maciel estudou filosofia, segundo ele próprio afirma (veja aqui), pelo livro Introducción a la Filosofía, de Manuel García Morente. O texto apresenta um panorama bastante acessível da filosofia ocidental. Morente parte da dualidade fundamental de sujeito e objeto, e sustenta que no início da história da filosofia a ênfase era no objeto, ou seja, na realidade – aquilo que está fora de mim, tudo que não sou eu.
Segundo Morente, a primeira grande revolução filosófica acontece com a filosofia moderna (Descartes, Leibniz, Spinoza), que desloca a ênfase do objeto para o sujeito. Daí decorre a famosa frase de Descartes “Penso, logo existo” (Cogito, ergo sum). Descartes coloca o pensamento subjetivo antes da existência, que é objetiva. É o pensamento subjetivo que o autoriza a acreditar no objeto. Nasce daí a relação estabelecida aqui entre a certeza sensível, expressa no cogito cartesiano, e o conceito de śraddhā na Bhagavad Gītā. Esta tendência de valorização do sujeito ocorre também no empirismo inglês, o qual questiona, inclusive, a própria substancialidade do objeto. Em outras palavras, é a reunião das experiências sensoriais (pelo tato, olfato, paladar, audição e visão) que dão existência aos objetos fora de nós. Do mesmo modo, a filosofia do idealismo alemão (Kant, Fichte, Schelling e Hegel.) coloca o objeto como resultado de uma experiência, ou seja, de um testemunho do sujeito. Esta tendência aprofunda-se com Hegel e tem a sua culminância com Soren Kierkegaard, pensador dinamarquês que se atreveu a criticá-lo. Para marcar a importância e o sentido filosófico da vida Kierkegaard afirmou que Hegel seria como um homem muito rico que, ao construir uma mansão maravilhosa, teria optado por morar do lado de fora, na casa do zelador. Para Kierkegaard, Hegel construíra um edifício teórico espantoso, mas inútil, pois despreza a única coisa que interessa – a vida, a existência. Nasce assim o movimento da Filosofia Existencialista, que marcou profundamente a vida de Maciel.

2025-07-19

Śraddhā Quaerens Intellectum: O Dilema Moderno da Criatividade e o Nascimento de um Novo Paradigma (II)


II. Śraddhā como Motor
do Conhecimento e da Criação

II.1. Śraddhā: a energia do ardor do foco absoluto do coração e a certeza intuitiva daí derivada

No âmago da Bhagavad Gītā pulsa uma palavra que não é apenas conceito, mas vibração ontológica: śraddhā. Muitas vezes traduzida por “fé”, esse termo carrega implicações muito mais profundas que a simples crença em algo invisível ou a adesão a uma doutrina. Śraddhā é, antes de tudo, uma expressão do foco absoluto do coração, o sentimento de certeza interior e confiança luminosa, que não exclui o intelecto, mas o alimenta e o conduz.

2019-02-06

O "Bom-Senso", a Bhagavad Gītā e o contexto do ​Mahābhārata

Eu penso, portanto eu sou.
(Discurso sobre o Método,  1637)
O "Bom-Senso": o coração tem razões que a própria razão desconhece

O bom-senso (com hífen), representa, diferentemente do senso comum (sem hífen), a base fundamental onde se assentam todas as expressões verdadeiras, justas e belas. Pode ser entendido como o resultado do pleno funcionamento da razão, quando iluminada pelo sentimento ajuizado que jorra do coração. Neste sentido novo, o antônimo de "bom-senso" é "fé cega" e não "mau senso". O bom-senso, portanto, previne contra toda a espécie de dogmatismo, fantasia, idolatria e fanatismo. Esta definição ingênua, quase óbvia, poderia ter sido formulada por Descartes, mas ele não explicou completamente o que entendia por "bom senso" (sem hífen). O resultado é que até hoje os lexólogos só reconhecem o sentido da expressão sem o hífen. O  bom-senso (com hífen) de Descartes, contudo, manifesta-se em sua obra como a expressão elevada desse sentimento ardoroso interior que o orientou, de forma indubitável, como uma bússola, em direção à sua primeira certeza sensível: "cogito ergo sum" –  penso, logo existo (1644). A certeza sensível é uma expressão da harmonia entre a razão (mente) e o coração (intuição). Surge do mesmo bom-senso que fez Descartes ferver por inteiro, impedindo-o de sucumbir à letra morta das Escrituras, à autoridade papal e, principalmente, de cair vítima da interpretação cega das leis e dos costumes da época. Foi o seu bom-senso que impediu a sua razão de se tornar mera desrazão, à serviço de interesses obscuros das pseudo-ciências, pseudo-religiões e pseudo-justiça. O seu bom-senso, ou seja, a sua razão iluminada pela luz do coração, dotou-o de coragem para driblar a desrazão vigente e manter a coerência entre o seu discurso e a sua prática.

2026-05-30

A Genealogia da Crise — Da Máscara Teatral à Cisão Substantiva

Da máscara à interioridade:
a crise da pessoa entre a voz pública da persona e a solidão do eu substantivado.

1. Prósōpon, Persona, Personagem — A Origem Teatral e Sonora

A palavra “pessoa” carrega no Ocidente um peso ontológico, jurídico e teológico imenso. Mas sua raiz repousa em um solo modesto, funcional e sonoro. Longe de ter nascido para designar um núcleo substancial fechado ou uma alma isolada, o termo tem uma origem essencialmente teatral e relacional.

2025-07-19

Śraddhā Quaerens Intellectum: O Dilema Moderno da Criatividade e o Nascimento de um Novo Paradigma (I)

Introdução — A criatividade e a necessidade de uma revolução epistêmica

Criar, no vocabulário corrente, é produzir algo “do nada”. Esta expressão, carregada de um misticismo secularizado, remonta tanto à ideia teológica de creatio ex nihilo, quanto à noção romântica do gênio espontâneo, que transcende as regras e impõe ao mundo sua assinatura [1]. Porém, a ciência moderna, guiada por um paradigma materialista, não reconhece este “nada” como um vazio fértil, mas como ausência, ruído ou ilusão. Ao mesmo tempo, a mesma ciência se distancia cada vez mais da experiência viva da criação, reduzindo-a a processos cerebrais, algoritmos adaptativos ou replicações sofisticadas.

2024-07-24

A Bhagavad Gītā sob a Ótica Sintrópica: 61 Proposições como Sementes de uma Ciência do Hṛdaya


01. Este texto reúne, em sessenta e uma proposições, não um sistema concluído, mas sementes de inteligibilidade amadurecidas ao longo deste portal: pontos de orientação que se tornaram visíveis quando a Bhagavad Gītā foi lida à luz de uma ótica sintrópica. Em vez de encerrar uma interpretação, estas proposições buscam abrir um campo: uma forma de compreender a ciência e sua conexão com a realidade sagrada sem reduzir o real ao discurso nem a espiritualidade à crença. Partiremos da filosofia sintrópica, tal como vem se consolidando nos últimos anos, e a colocaremos em diálogo com leituras contemporâneas do Vedānta — com ênfase no Viśiṣṭādvaita — não para fixar uma ortodoxia, mas para indicar uma direção de pesquisa e de práxis onde o indivíduo é real e sua relação com o todo é constitutiva.