2026-10-27

A Universidade do Coração

Da presença que reconhece à palavra que serve

Universidade do Coração — a aprendizagem como presença e reconhecimento compartilhado.
Ilustração conceitual gerada com IA.

I. A Convivência como Campo de Aprendizagem

A Universidade do Coração encontra seu campo mais decisivo de aprendizagem na própria convivência: na maneira como escutamos, reconhecemos e respondemos aos outros. Ao ser convidado a compartilhar algumas lembranças de sua história e de minha convivência com Francisco Barreto, percebi que o principal desafio não estava em preparar uma fala, mas em cultivar a presença com que participaria do encontro. Tratava-se de estar disponível para escutar, acolher o que surgisse e permitir que as palavras nascessem naturalmente da experiência vivida, com a leveza de quem procura praticar aquilo que busca compreender.

Eu poderia organizar uma cronologia, selecionar episódios, reunir conceitos e preparar uma exposição sobre hṛdaya, śraddhā e a Bhagavad Gītā. Essa preparação teria utilidade, mas não resolveria a questão que o próprio convite fez nascer. Uma fala sobre o coração pode permanecer inteiramente exterior à experiência do coração. Podemos descrever a escuta sem escutar; celebrar o diálogo e conduzir um monólogo; defender a liberdade interior e tentar governar antecipadamente a experiência alheia. A coerência entre conhecimento e vida exige algo mais do que uma apresentação bem construída.

A possibilidade daquele encontro — e, nele, de um verdadeiro saṃvāda — assumiu, portanto, o sentido de um acontecimento filosófico: trouxe para o cotidiano uma questão que não poderia permanecer apenas no plano das ideias. Em vez de perguntar como produzir determinada impressão nas pessoas, comecei a indagar que disposição interior precisaria cultivar para acolher a situação tal como ela se apresentasse. A resposta não estava em deixar de lado a memória, o estudo ou o discernimento, mas em mantê-los disponíveis sem que ocupassem o centro do encontro. Preparar a presença não significava improvisar por falta de preparo, mas amadurecer uma clareza capaz de servir às perguntas que efetivamente surgissem.

É dessa mudança de orientação que emerge a hipótese central deste ensaio: a Universidade do Coração pode ser compreendida como uma pedagogia da presença, na qual o ser orienta o fazer, o fazer confere consistência ao dizer e a palavra encontra sua justa medida ao servir ao reconhecimento que o saṃvāda pode favorecer. Ser, fazer e dizer, contudo, não constituem etapas sucessivas, mas dimensões inseparáveis da experiência humana. Distinguimo-las aqui para compreender uma aprendizagem que não se esgota na transmissão de conteúdos e cuja exigência mais profunda se revela na maneira como nos relacionamos.

II. SER — Hṛdaya e a abertura à presença

Na linguagem cotidiana, o coração costuma designar a esfera dos sentimentos, enquanto a mente seria responsável pelo pensamento e pelo conhecimento. Essa divisão é insuficiente para expressar o significado de hṛdaya na interpretação filosófica do Śraddhā Yoga que venho desenvolvendo. O coração não é simplesmente a emoção contraposta à razão. É reconhecido como princípio de orientação e de presença, o centro a partir do qual a inteligência pode encontrar sentido sem perder sua capacidade de examinar, distinguir e corrigir.

A tradição oferece distinções úteis. Manas participa da organização da experiência mental, acolhendo percepções, alternativas e movimentos do pensamento; buddhi designa a inteligência discriminativa, que discerne e decide. Hṛdaya, no horizonte desta investigação, não é mais uma faculdade concorrente, destinada a substituir as demais. É o princípio de abertura a partir do qual essas atividades podem deixar de servir exclusivamente à preservação da imagem do eu e encontrar uma orientação mais profunda. A fórmula que venho utilizando procura condensar essa relação: o coração reconhece, a mente traduz. Traduzir, porém, não significa apenas repetir; significa elaborar, argumentar, conferir e permanecer disposto à correção.

Para aproximar essa experiência, recorro à imagem de uma porta aberta. A porta não cria a luz que entra por ela; tampouco decide o que a luz deve revelar. Sua abertura permite que o ambiente se torne visível. Nessa analogia, hṛdaya indica a abertura; śakti, a potência viva de manifestação reconhecida na linguagem espiritual; śraddhā, a qualidade de confiança pela qual nos dispomos a corresponder à verdade. Não são três nomes intercambiáveis de uma mesma coisa. Tampouco a imagem pretende oferecer um mecanismo físico da consciência. Ela descreve, a partir do horizonte filosófico aqui assumido, uma maneira de compreender a passagem da potencialidade à relação vivida.

Convém ser preciso quando falamos da energia de uma presença. Podemos perceber a serenidade, a atenção, a tensão ou a disponibilidade de alguém antes mesmo de compreender plenamente suas palavras. A experiência do encontro possui uma espessura que excede o conteúdo explícito do discurso. Entretanto, essa percepção não autoriza concluir que toda impressão de intensidade corresponda a uma manifestação espiritual verdadeira. Uma presença eloquente também pode seduzir; uma atmosfera emotiva pode produzir adesão sem entendimento. Por isso, não reduzo a presença à transmissão de uma energia entre indivíduos, nem a nego como possibilidade da experiência espiritual. Interessa-me, sobretudo, a qualidade da relação na qual uma pessoa pode tornar-se mais livre para reconhecer e discernir por si mesma.

É nesse sentido que śraddhā adquire centralidade. A Bhagavad Gītā afirma que o ser humano é conforme sua śraddhā (BhG 17.3). Essa formulação permite compreender a confiança não como uma opinião isolada entre outras, mas como disposição formadora da pessoa, presente no modo como ela reconhece o mundo e assume suas ações. Ao relacionar śraddhā a Ṛta, a ordem que sustenta a inteligibilidade do real, e a satya, a verdade, proponho uma hipótese sobre a consonância entre consciência e realidade. A expressão śraddhā quaerens intellectum indica a busca de compreensão que nasce dessa confiança e se oferece ao trabalho crítico da inteligência.

A certeza de que a verdade não engana não deve ser confundida com a certeza de que nossas interpretações sejam infalíveis. Ao contrário, a confiança no verdadeiro torna possível reconhecer erros sem que toda a busca de conhecimento desmorone. O alinhamento com Ṛta não pode ser reivindicado como autorização para transformar uma impressão subjetiva em verdade indiscutível. Ele deve manifestar-se, entre outros sinais, na honestidade intelectual, na responsabilidade pelas consequências do que fazemos e na disposição de rever nossa compreensão. Ver com amor sem perder critério, e exercer critério sem perder amor: essa disciplina resume algo essencial da abertura que procuro nomear.

Preparar a presença, portanto, não é produzir em nós um estado emocional especial. É exercitar a capacidade de estar disponível à realidade sem tentar submetê-la previamente às expectativas do ego. Meditação, silêncio, atenção e discernimento podem participar desse trabalho. O que importa é que a interioridade não se converta em refúgio diante do mundo, mas amadureça como disposição para encontrá-lo. O coração não nos afasta da inteligência ou da ação; oferece-lhes uma orientação que necessita ser continuamente vivida e examinada.

III. FAZER — O testemunho que se torna práxis

Não posso investigar a Universidade do Coração sem reconhecer o papel de Francisco Barreto, que consagrou essa expressão e dedicou parte significativa de sua vida às iniciativas destinadas a materializar o ideal que ela representa. Minha convivência com Francisco marcou profundamente a maneira como passei a compreender a relação entre espiritualidade e responsabilidade humana. O que hoje procuro formular como reflexão filosófica nasceu também de experiências comunitárias, de trabalhos compartilhados e das exigências concretas de uma disciplina vivida ao longo dos anos. O testemunho tem aqui um lugar próprio: não serve como prova de uma doutrina, mas como campo de experiência a partir do qual uma pergunta filosófica pode amadurecer.

Após o falecimento de Śrī Vajera, em setembro de 1984, Cássia e eu estreitamos nossa colaboração com Francisco, especialmente nas atividades relacionadas ao Śuddha Sabhā Ātma e ao desenvolvimento da futura Universidade do Coração. Em janeiro de 1987, mudamo-nos para Sergipe, integrando-nos mais diretamente a esse projeto. No antigo Ashram Ātma, em Aracaju, e nas iniciativas posteriormente vinculadas à Grande Síntese, acompanhamos uma tentativa de reunir reflexão, disciplina espiritual e convivência numa mesma orientação de vida. O aprendizado que essas experiências proporcionavam não era independente das dificuldades e responsabilidades de sua realização.

Entre janeiro de 1988 e maio de 1989, participamos de quarenta e dois encontros denominados Buddhi Yajñas — Esforços de Intelecção —, voltados à reflexão colaborativa sobre os fundamentos e a materialização da Grande Síntese e da Universidade do Coração. Recordo esses encontros não apenas pelo conteúdo discutido, mas pela exigência de pensarmos juntos um ideal que ainda procurava suas formas de expressão. A intelecção aparecia como esforço compartilhado, e não como simples recepção de uma doutrina pronta. É possível reconhecer retrospectivamente ali uma das raízes do que hoje procuro explicitar como saṃvāda: a investigação que se realiza no próprio encontro.

Outros marcos tornaram visível a continuidade desse trabalho. Em maio de 2010, Cássia e eu acolhemos formalmente uma colaboração mais estreita com o projeto. Entre 3 e 5 de fevereiro de 2012, reunimo-nos com Francisco em nosso Grupo de Estudos, no Rio de Janeiro, para refletir sobre princípios e possibilidades de implementação. Em 31 de agosto do mesmo ano, ocorreu na Fazenda Mãe Natureza a cerimônia de consagração e inauguração do complexo do Śuddha Sabhā Ātma. Em abril de 2018, a última visita de Francisco ao Rio de Janeiro incluiu a consagração do Ashram Brahmala, em Niterói, e o encontro A Via do Coração, realizado em nosso núcleo de estudos no dia 15 daquele mês.

Essas datas assinalam acontecimentos distintos e não devem ser confundidas com o nascimento absoluto de um ideal que já vinha sendo cultivado havia décadas. Seu significado, para a presente reflexão, está nas tentativas sucessivas de oferecer condições institucionais e comunitárias a uma concepção de formação humana. Uma universidade, nesse horizonte, não se define primeiramente pela existência de um campus ou pela concessão de títulos. Define-se por uma direção de sentido: a integração entre conhecimento, amadurecimento da consciência e responsabilidade pela vida compartilhada. As instituições podem servir a essa direção, mas nenhuma delas possui o monopólio de sua realização.

Ao longo dessa convivência, reconheci em Francisco uma qualidade que mais tarde encontrei, de maneira conceitualmente fecunda, no estudo de śraddhā na Bhagavad Gītā. Esse reconhecimento pertence à minha experiência e à minha interpretação de sua vida; não exige que outras pessoas cheguem à mesma conclusão. Justamente por isso, o testemunho pode ser oferecido sem impor adesão. Ele apresenta uma vida que me ajudou a formular perguntas sobre confiança, compromisso e coerência, deixando ao interlocutor a liberdade de avaliar o que essas experiências lhe dizem.

Essa trajetória também encontrou expressão acadêmica. Minha investigação de śraddhā, aprofundada no doutorado na McMaster University, procurou conferir elaboração filosófica a questões amadurecidas na vida e nos estudos. A disciplina A Arte e a Ciência da Meditação, oferecida na UFRJ a partir de 2019, buscou dar forma universitária e transdisciplinar a uma convergência entre contemplação, conhecimento e ação. O portal Śraddhā Yoga Darśana, iniciado em 2016, tornou-se outro espaço de elaboração, testemunho e diálogo; mais recentemente, o Hṛdaya-Saṃvāda digital abriu possibilidades de investigação e organização desse percurso. São expressões diferentes de um mesmo problema: como permitir que o conhecimento se torne formador da existência?

A resposta não pode ser encontrada apenas na expansão das atividades. Uma pessoa pode estudar a compaixão e continuar incapaz de acolher quem lhe apresenta dificuldades; pode ensinar o discernimento e usá-lo para justificar a indiferença; pode falar sobre o coração sem permitir que sua própria maneira de se relacionar seja transformada. A práxis começa justamente onde o conhecimento encontra resistência em nossos hábitos. O critério de sua fecundidade não está na imagem espiritual que projetamos, mas nos efeitos de nossas escolhas sobre as pessoas e as relações. É nesse terreno que uma filosofia sintrópica da formação humana precisa demonstrar sua responsabilidade.

IV. DIZER — Saṃvāda e a palavra que serve

Se o ser orienta o fazer, a palavra surge como uma de suas expressões, não como sua finalidade. O valor de uma fala não depende exclusivamente da beleza de suas formulações, de sua capacidade de impressionar ou da autoridade reconhecida ao orador. Depende também de sua relação com aquilo que o encontro efetivamente solicita. Há momentos em que uma explicação ampla é necessária; outros pedem um esclarecimento breve, uma pergunta, uma lembrança ou simplesmente silêncio. Uma pedagogia do coração não despreza a palavra: procura libertá-la da obrigação de preencher todos os espaços.

O saṃvāda não é uma técnica para obter concordância. É uma disposição de encontro na qual a escuta possui dignidade cognitiva. Escutar significa acolher o que o outro procura expressar antes de traduzir sua fala para nossas próprias categorias; significa permitir que uma questão altere o curso previsto de nossa resposta. Isso não exige abdicar do que sabemos, nem tratar toda afirmação como igualmente verdadeira. Exige que a convicção não se transforme em impermeabilidade. A resposta pode ser firme e, ainda assim, permanecer aberta ao esclarecimento e à correção.

A cena da Bhagavad Gītā oferece uma imagem decisiva dessa relação entre conhecimento e situação existencial. Arjuna não se encontra diante de uma conferência organizada para seu aperfeiçoamento intelectual. Ele enfrenta uma crise que compromete sua capacidade de compreender e agir. O ensinamento de Krishna responde à gravidade de uma pergunta vivida. A analogia, naturalmente, não autoriza atribuir a quem ensina a posição espiritual de Krishna, nem identificar qualquer grupo com Arjuna. O que ela ilumina é o princípio de que a palavra alcança profundidade quando não se separa da necessidade humana à qual responde.

É nesse horizonte que reconheço o sentido mais profundo da Universidade do Coração como expressão contemporânea do Śraddhā Yoga. A Bhagavad Gītā, compreendida no contexto do Mahābhārata, apresenta o ensinamento de Krishna como um diálogo entre dois kṣatriyas, diante de uma crise existencial que não poderia ser resolvida pela simples aplicação de prescrições tradicionais. Embora dialogue com o varṇāśrama (organização tradicional dos deveres segundo grupos sociais e etapas da vida) e com a paramparā (transmissão do ensinamento por sucessão de mestres e discípulos), sua leitura sintrópica permite reconhecer uma exigência de discernimento que não se esgota na autoridade das instituições, das linhagens ou das identidades religiosas. Krishna procura restituir à experiência humana o Yoga ancestral (BhG 4.1–3), cuja realização interior reconhecemos como Śraddhā Yoga — o yoga em sua pureza essencial, śuddha yoga, no qual conhecimento, amor e ação encontram unidade. A Universidade do Coração constitui, nessa perspectiva, uma tradução ocidental e sintrópica dessa aprendizagem: não uma nova ortodoxia, mas uma formação fundada no reconhecimento do hṛdaya, na liberdade do discernimento e na responsabilidade pela ação.

Se a liberdade do discernimento é constitutiva dessa aprendizagem, precisamos rever a própria ideia de “desarmar as pessoas”. Se essa expressão significar produzir um efeito psicológico calculado, ainda estaremos no domínio da performance. O primeiro desarmamento deve acontecer em quem deseja ensinar: abandonar a necessidade de vencer o interlocutor, de obter admiração, de confirmar uma identidade espiritual ou de conduzir todos a uma conclusão já determinada. Quando a fala deixa de servir a essas necessidades, pode tornar-se mais disponível para o reconhecimento compartilhado. A liberdade de quem escuta é parte do próprio sentido do ensinamento.

Todo encontro humano conserva uma margem de imprevisibilidade. Perguntas, silêncios, hesitações e interesses podem revelar necessidades diferentes daquelas que imaginávamos. Escutar o campo não significa reivindicar acesso privilegiado a uma energia invisível que dispensaria interpretação, mas permanecer atento à situação concreta, ao que nela se expressa e ao que ainda procura expressão, reconhecendo também os limites de nossa compreensão. Há momentos que pedem esclarecimento e outros que pedem silêncio; quando o conhecimento é convocado, cabe oferecê-lo com rigor, e quando não sabemos, reconhecer honestamente esse limite também é uma forma de presença.

Nesse sentido, a preparação intelectual conserva toda a sua dignidade. Estudar, conferir informações e amadurecer conceitos não contradizem a disponibilidade espiritual; ampliam nossas possibilidades de responder com discernimento e responsabilidade. O que precisa ser abandonado é a compulsão de transformar o conhecimento disponível numa apresentação obrigatória. O saber torna-se serviço quando responde a uma necessidade genuína sem substituir a experiência e o discernimento de quem escuta. Uma palavra simples, sustentada por uma escuta verdadeira, pode então realizar mais do que uma argumentação impecável que não chega a encontrar o outro.

V. A aprendizagem da presença

A Universidade do Coração, compreendida como pedagogia da presença, não é um título a conquistar nem uma condição espiritual que alguém possa reivindicar como propriedade. É um horizonte de formação renovado em cada circunstância em que conhecimento, discernimento e convivência são chamados a encontrar unidade. Seu trabalho começa na interioridade, mas não termina nela. O coração não nos retira do mundo; solicita que nossa presença nele se torne mais lúcida, responsável e disponível à vida.

A meditação participa dessa aprendizagem quando nos ajuda a reconhecer movimentos habituais da mente, impulsos de defesa, expectativas de reconhecimento e interpretações às quais nos agarramos antes de escutar. A qualidade contemplativa não se mede apenas pela serenidade experimentada durante a prática. Ela precisa ser examinada no modo como atravessamos conflitos, recebemos críticas, acolhemos diferenças e respondemos às exigências da ação. A contemplação que não encontra expressão no relacionamento permanece, nesse aspecto, incompleta.

Por isso, a Universidade do Coração não pode ser reconhecida somente nos momentos em que tudo favorece a harmonia. É nos encontros difíceis, nas histórias que carregamos e nas relações em que nossos condicionamentos se manifestam que essa disciplina se torna mais exigente. O mesmo princípio que orienta nossas relações pessoais alcança também o encontro entre culturas, religiões e diferentes visões de mundo. Acolher alguém sem reduzi-lo a uma imagem formada no passado não significa negar o passado ou renunciar ao discernimento. Significa reconhecer que nenhuma pessoa, cultura ou tradição se esgota nas representações que construímos a seu respeito. O presente permanece aberto à possibilidade de revelar algo que nossas antecipações ainda não alcançaram. O amor precisa do critério para não se tornar ingenuidade; o critério precisa do amor para não degenerar em julgamento hostil.

Essa aprendizagem exige também uma ampliação de nosso modo de conhecer. A razão, quando se considera suficiente para apreender todas as dimensões do real, pode aprisionar-se numa espécie de Planolândia, incapaz de reconhecer a profundidade que ultrapassa suas categorias habituais. Não se trata de abandonar a inteligência, mas de reconhecer seus limites e permitir que o coração ilumine seu exercício. Na Bhagavad Gītā, a visão divina concedida por Krishna a Arjuna — divyaṃ cakṣuḥ (BhG 11.8) — oferece uma imagem particularmente fecunda dessa abertura. É nesse horizonte que ganha sentido a passagem de fides quaerens intellectum (a fé em busca de compreensão), expressão consagrada por Anselmo de Cantuária ao aprofundar a herança de Agostinho, para śraddhā quaerens intellectum (a confiança originária em busca de compreensão). Essa passagem, que dialoga também com a tradição posteriormente desenvolvida por Tomás de Aquino, não representa uma negação do pensamento ocidental, mas sua abertura a um horizonte no qual o reconhecimento da verdade não depende da adesão a determinada autoridade religiosa ou filosófica. A Universidade do Coração procura cultivar essa liberdade, permitindo que a inteligência, orientada pelo hṛdaya, reconheça a unidade sem apagar a diversidade.

O legado de Francisco Barreto encontra aqui uma de suas expressões mais significativas. Em sua convivência, fui reconhecendo uma disposição de compreender a Bhagavad Gītā à luz do Evangelho e o Evangelho à luz da Bhagavad Gītā, sem reduzir uma tradição à outra. Sua preferência por comunicar esse conhecimento na linguagem comum do português expressava, a meu ver, a convicção de que a experiência espiritual não depende do domínio de um vocabulário especializado nem da filiação a determinada escola. A imagem de Gandhi, para quem as religiões são ramos distintos de uma mesma árvore, ajuda a esclarecer esse horizonte: a unidade não exige abolir as diferenças entre as tradições, mas reconhecer uma dimensão da experiência espiritual que nenhuma delas pode reivindicar como propriedade exclusiva. A universalidade não está na uniformidade das crenças, mas na possibilidade de reconhecer, por caminhos diferentes, a verdade que se manifesta no amor e na práxis. A memória de Francisco permanece indispensável, mas sua fidelidade mais profunda se manifesta quando aquilo que foi vivido se torna princípio de nova responsabilidade. A história oferece referências; a filosofia procura esclarecê-las; a presença coloca ambas à prova.

É nessa perspectiva que o encontro humano revela sua possibilidade sintrópica. Quando a escuta se abre ao reconhecimento do outro, sem a necessidade de antecipar respostas ou determinar conclusões, o conhecimento encontra uma nova forma de servir à vida. O saṃvāda não exige uma palavra previamente preparada para conduzir o interlocutor, mas uma presença capaz de acolher aquilo que emerge da relação. Talvez a formulação mais simples seja também a mais exigente: não preparar a palavra para ocupar o encontro, mas cultivar a presença para que a palavra encontre seu lugar. Quando o ser orienta o fazer e o dizer se dispõe a servir, a consciência, a inteligência e a ação procuram corresponder à verdade na própria convivência. Assim, a Universidade do Coração não aparece como instituição que se realiza por decreto, nem como projeto de um mestre que conduz seus discípulos. Ela acontece na própria qualidade da relação, quando o reconhecimento se torna compartilhado.

Nota de Método

Tese. A Universidade do Coração é compreendida como uma possibilidade de realização coletiva do hṛdaya-saṃvāda, na qual presença, discernimento e palavra encontram unidade na experiência compartilhada. O ensaio articula testemunho histórico, investigação filosófica e interpretação sintrópica do Śraddhā Yoga, reconhecendo o coração como princípio de orientação da inteligência e da ação.

Risco. Confundir presença espiritual com influência psicológica ou transmissão de energia fisicamente demonstrável; converter testemunhos em provas metafísicas; reduzir diferentes tradições a uma única doutrina; ou transformar a universalidade do coração em nova pretensão de superioridade espiritual. A interpretação proposta permanece aberta ao discernimento, à crítica e à revisão.

Próximo. Retornar ao Sumário Geral.

Versão v1.0 — Publicado em 27.10.2026 — Atualizado em 27.10.2026