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2021-11-10

O desenvolvimento da hagiografia de Francisco Barreto

Este artigo discute a hagiografia (Sūrya-charita) de Francisco Barreto (25.11.1950 – 13.11.2020) e presta-lhe uma homenagem póstuma nesta semana em que se celebra o primeiro ano da sua passagem. Francisco faleceu na sexta-feira, dia 13 de novembro de 2020, pouco antes da meia noite. O seu sepultamento deu-se na Fazenda Mãe Natureza, conforme o seu desejo. O desenvolvimento da hagiografia de Francisco, sob a forma de uma espécie de “memorial do futuro”, baseia-se em passagens criteriosamente selecionadas de alguns de seus vídeos, deixados por ele sob a minha guarda e responsabilidade. Este memorial (veja aqui) vem sendo desenvolvido em conformidade com as orientações do próprio Francisco, bem como do nosso compromisso com os ideais da filosofia sintrópica do śraddhā yoga da Bhagavad Gītā, que orientam a Universidade do Coração, definidos em nossa casa, no ato da sua criação, nos dias de 03 a 05 de fevereiro de 2012.

No dia dezesseis de janeiro de 2018, recebi a confirmação espiritual de que deveria dar início à publicação do material sob a minha guarda sobre a vida e obra de Francisco Barreto, conforme ele mesmo havia me pedido, em 30.12.10 (veja aqui), enquanto experienciava uma de suas experiências de êxtase místico, que tive oportunidade de testemunhar. Senti que encontrara, finalmente, a forma apropriada para tratar do processo da ascese mística de Francisco (veja aqui como a serie, iniciada em 22.07.20, vem sendo desenvolvida).

2020-12-24

A passagem de Francisco Barreto e a Universidade do Coração como campo de práxis

Francisco Barreto (1950 - 2020)
Este texto não registra a fundação de uma instituição, mas a maturação de um campo de práticas que, em determinado momento, recebeu o nome-inspiração “Universidade do Coração”. A expressão não é marca nem projeto proprietário: é um modo de nomear um eixo — coerência entre vida interior, responsabilidade comunitária e reverência pela vida. A playlist Sūrya-charita (2020) nasce deste mesmo eixo: zelar pelo memorial de Francisco Barreto (Ir. Sūrya Yogi Dāsa) como testemunho de práxis.

2018-08-03

Cultivando egrégoras

O logotipo é uma referência explícita ao
ideal de cultivar egrégoras (maṇḍalas).
I. Os desafios da viagem de retorno

Após o meu retorno ao Brasil, logo me dei conta de que deveria colocar em prática os resultados teóricos obtidos durante a pesquisa de tese desenvolvida na McMaster University (2001-7). Decidi, então, estruturar o site “A Corrente da Borboleta” (2007), para servir de base ao desenvolvimento de grupos de estudos sobre a arte e a ciência da meditação segundo a Bhagavad Gītā. Iniciei um primeiro grupo no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (2008), no Largo São Francisco, depois outro no programa PACEM da UFRJ (2009 - 2010), na Praia Vermelha e, finalmente, um terceiro grupo em nosso próprio apartamento (2010 até o presente). Foi assim que terminamos por hospedar aqui em casa em 2012, de três a cinco de fevereiro, o evento com Francisco Barreto e outros membros da Grande Síntese para discutir o processo de gestação de uma futura Universidade do Coração. O site “A Corrente da Borboleta” foi, então, doado para a instituição e reestruturado para atender aos interesses da nascente Universidade do Coração (veja aqui).

2018-04-17

A Via do Coração: impessoalidade, religião e espiritualidade

Francisco Barreto, instantes antes do início da cerimônia de consagraçào do Ashram Brahmala (08.04.18)
Francisco Barreto, instantes antes do início da
cerimônia de consagração do Ashram Brahmala
(08.04.18)
Depois da organização de um evento, quase ninguém se ocupa em refletir sobre as etapas e os desdobramentos conceituais do processo da sua realização.

É esta reflexão, relativa ao evento que culminou com o encontro realizado no último domingo (15.04.18) com Francisco Barreto, intitulado A Via do Coração, que será objeto do presente artigo.

Qual dos idealizadores ou participantes de um evento se recorda de como se deu o seu envolvimento com as distintas etapas do processo de elaboração?

No caso do encontro encerrado no último domingo, tudo começou com a iniciativa de Francisco — gestar em sua mente esta viagem ao Rio, com todos os seus percalços, dificuldades e acertos, em meados de março.

De minha parte, tenho consciência de que minha participação iniciou-se com o convite que recebi de um dos integrantes do grupo de Niterói, no dia 19 de março, logo após a reunião com os colaboradores anônimos da Universidade do Coração, conduzida por Francisco via Skype, para conhecer o espaço que abrigaria o novo Ashram Brahmala, afiliado à instituição.

Eu sabia que o estabelecimento do Ashram representava uma das principais motivações da visita de Francisco: era necessário consagrar aquele espaço e preparar as pessoas incumbidas de levar adiante a árdua tarefa de viver e difundir os nobres ideais da realização espiritual, difundidos pela Grande Síntese, órgão mantenedor da futura Universidade do Coração.

2018-04-03

A Via do Coração: um reencontro com Francisco Barreto

Buddhi Yajña: Arquivo com os registros das reuniões de gestação da Grande Síntese
Buddhi Yajña: Reuniões de gestação da Grande Síntese
Conheci Francisco Barreto em 1978, no Ashram Sarva Mangalam, ainda em seu antigo endereço, na esquina das ruas Aurélia e Heitor Penteado, na cidade de São Paulo. Eu frequentava este espaço, dirigido pela saudosa Marinês Peçanha de Figueiredo, desde que fora iniciado nas práticas de meditação, naquele mesmo local, pelas mãos de Sri Vajera, em 25 de agosto de 1974. Francisco havia recém ingressado em nossa instituição (28.08.1977) e estava de passagem por São Paulo. Ainda me lembro quando, após a prática de meditação, Marinês o convidou para se apresentar e dizer algumas palavras sobre o trabalho que estava estruturando em Sergipe. Logo após deixar o nosso grupo, Francisco seguiu viagem para Ribeirão Preto, onde foi recebido por Sérgio Barretto, o seu primeiro contato na instituição. 

2021-10-14

A Meditação e a Universidade do Coração

Embora o primeiro esboço deste texto tenha sido elaborado em 28.01.12, uma semana antes da vinda de Francisco Barreto ao Rio de Janeiro com alguns voluntários da Grande Síntese para o estabelecimento da pedra fundamental da Universidade do Coração
Francisco Barreto (05.02.2012)
, a sua conclusão está sendo possível somente agora. Quando eu comecei a escrever este texto havia há pouco concluído os três anos do meu pós-doutorado com bolsa da FAPERJ (Processo E-26/101.733/2008-Bolsa; e matrícula 2008.0660.0) na Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da UFRJ, responsável pela implementação do Laboratório de Estudos sobre a Índia e Ásia do Sul (LEIAS) na UFRJ, conforme previa o convênio de cooperação técnica número 7/2007, celebrado entre a Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por questões políticas, o projeto de implementação do LEIAS foi cancelado, impedindo o estabelecimento do programa regular e bilateral entre Brasil e Índia, destinado a doutorandos e mestrandos da UFRJ interessados em temas relacionados à história, cultura e economia do subcontinente asiático.

2020-06-06

Um pouco sobre a arte de despertar para o coração

Este artigo relaciona a experiência que vivi em sonho em trinta e um de janeiro de 2018, com aquela vivida pelo irmão Francisco, Sūrya Yogi Dāsa1, em novembro de 2019 e comunicada aos membros do Śuddha Sabhā Ātma e da Grande Síntese no início de dezembro.

Irmão Sūrya fora instruído a orientar os membros da instituição para reservarem o dia vinte e cinco de cada mês como o Dia de Ação de Graças, destinado à reflexão sobre a espiritualidade universalista e laica do Śraddhā Yoga, estabelecido na Bhagavad Gītā. Esta pode ser traduzida como a arte e a ciência do estabelecimento da sintonia fina com as diversas frequências das ondas de amor do Espírito Universal (Ātman), transmitidas a partir da “rádio cósmica” presente em nosso próprio coração. Na “rádio do coração” estão todas as faixas de frequência, desde os reinos das paixões inferiores, de base material, até os mais elevados estados de comunhão e unidade com a fonte da vida. Simbolicamente, o coração é tanto a sede da consciência egóica e material (Ahaṃkāra), com toda a carga genética das paixões inferiores, como da consciência universal e pura (Ātman), origem da vida e dos sentimentos intuitivos superiores.

2017-07-08

Cultura Sintrópica: a amorização universal

A práxis sintrópica e o sentimento de amor universal

O tema da vivência conduzida hoje (08.07.17) na sede da Grande Síntese, por Francisco Barreto, foi a amorização universal, designada, tecnicamente, como "bhāvana namaḥ". Em poucas palavras, bhāvana namaḥ pode ser entendida como a disciplina fundada na escuta e na rendição ao Ser. A rendição (namaḥ) ao sentimento (śraddhā) provocado pela escuta do Ser (bhāvana) nos conduz à realização espiritual.

A vivência representou uma oportunidade para que todos os presentes pudessem  experimentar desta práxis que nos convida ao exercício de superação dos valores da pós-modernidade e de rendição ao sentimento de amor universal, com o firme compromisso de estabelecer o jejum de pensamentos, palavras, alimentos dos sentidos e de tudo o que possa distrair a nossa atenção do processo de convergência sintrópica para a meta única a ser alcançada por todos os seres, que é a comunhão com o Absoluto (Brahma-sāmīpya) .

2017-09-19

A oração do Pai Nosso em aramaico

Oração do Pai Nosso, gravada em pedra de mármore no Monte das Oliveiras,
na Igreja do Pai Nosso em Jerusalém
.
Recebemos na quinta-feira, 14.09.17, em nosso Grupo de Estudos a visita do Jñāna Dāta Francisco Barreto, idealizador do projeto da Universidade do Coração, que, antes do almoço de confraternização, fez a consagração dos alimentos com a oração do Pai Nosso em aramaico, idioma utilizado por Jesus. Esta oração (traduzida aqui) está gravada em uma pedra de mármore branco na Igreja do Pai Nosso, no Monte das Oliveiras, em Jerusalém, na Palestina.

2023-06-06

O Sentimento Sintrópico (Śraddhā) do Espírito Humano (Ātman) e a sua Relação com a Razão (Buddhi e Manas) na Produção da Ciência Contemporânea (I)

I. Mapeando o surgimento da Cultura Sintrópica no Brasil

Gostaria que este ensaio fosse lido apenas como um capítulo de um diário antropológico, ou seja, como um registro pessoal de observações, reflexões e análises oriundas do convívio de mais de quarenta anos com Francisco Barreto, o fundador e Instrutor do antigo Ashram Ātma. Ele se destina, tão somente, a oferecer o contexto e os processos culturais envolvidos no desenvolvimento da práxis sintrópica, definida anteriormente, que nos animava. A sua relevância está, precisamente, no fato dele mapear o nascimento e o desenvolvimento de alguns elementos da cultura sintrópica no interior de uma pequena comunidade, localizada em Aracaju – SE e dedicada à prática do Śuddha Yoga. Este ensaio reflete, basicamente, sobre as discussões que tínhamos no Ashram, no final dos anos setenta e início dos oitenta, e que fizeram despertar o interesse do grupo sobre o papel do conhecimento da realidade material para o progresso espiritual do indivíduo e da sociedade. Ele dá sequência ao texto anterior do presente capítulo e discorre sobre o contexto em que a práxis sintrópica do Śuddha Yoga fora ali vivenciada. Ilustra também como o Sentimento Sintrópico (Śraddhā) do Espírito Humano (Ātman) se relaciona com a Razão (Buddhi e Manas) na produção da boa ciência.

2017-12-01

Homenagem a Sérgio Barretto: um servidor incansável do Śuddha Dharma

A Ciência da Meditação e a Consciência de Si
Sérgio Barretto
(23.08.31 - 30.11.17)
Ontem, 30 de novembro de 2017, faleceu o irmão de minha mãe, Sérgio Barretto, instrutor de Śuddha Rāja Yoga desde os idos de 1960. Com o seu espírito alegre e agregador, tio Sérgio contribuiu para o desenvolvimento de diversos Ashram-s e centros de estudo por todo o Brasil. Foi ele quem primeiro me orientou em meus estudos sobre Yoga e Índia. Quando adolescente, eu costumava passar as minhas férias em sua casa, na companhia dos meus primos. Ele sempre contava com entusiasmo aquelas histórias dos santos iogues do oriente. Foi o tio Sérgio quem me apresentou formalmente ao Francisco Barreto, hoje instrutor do Śuddha Sabhā Ātma, em Sergipe. Foi ele também que, juntamente com Francisco Barreto, cooficiou a cerirmônia ióguica de meu casamento com Cássia, em 06 de fevereiro de 1983, no antigo Ashram Atma, em Aracaju. Pouco mais tarde, nós nos mudaríamos para Sergipe para nos integrarmos ao projeto de gestação de uma futura “universidade Śuddha”, a Universidade do Coração.

2023-05-22

A Cultura Sintrópica e o Espírito, este desconhecido

O mundo é tal como nos parece,
feito de coisas que não aparecem.

Conforme explico mais detalhadamente ao longo dos capítulos seguintes, logo que conheci Francisco Barreto, em 1979 fui convidado a experimentar mais profundamente a forma de viver proposta no Śraddhā Yoga, muitas vezes chamada de “espiritualista”, por falta de um melhor nome, mas que, na verdade, integra e unifica as experiências do universo fenomenológico, dando igual peso à matéria e ao espírito. O Śraddhā Yoga, em seu nível mais profundo, não nos convida a assumir, nem uma postura teísta, nem ateísta, mas aquela oriunda de se compreender o equilíbrio sintrópico destes dois níveis de percepção de uma mesma realidade: o nível entrópico (rajásico e tamásico) do mundo, experimentado como saṃsāra; e o nível sintrópico (sáttvico) desta mesma realidade “material”, experimentado de forma espiritual e laica como nirvāṇa.

2026-01-27

O MOVIMENTO DO SER

(A Contemplação como Morada e a Unidade dos Dois Pássaros)
1. O Encontro dos Dois Pássaros

Toda a angústia humana – e toda a sua busca – pode ser resumida na distância imaginária entre dois pássaros pousados na mesma árvore. A antiga metáfora védica nos apresenta o primeiro pássaro, o Jīva (a alma egoica), inquieto, saltando de galho em galho, provando os frutos doces e amargos da experiência, perdido na vertigem do vir-a-ser. O segundo pássaro, o Ātman (o Espírito), permanece imóvel. Ele não come, não busca, não teme; ele apenas observa. Ele é a Testemunha Silenciosa, a plenitude que é.

2016-12-08

Meditação Viva: Haṃsa, a Respiração do Ser em Movimento - Uma introdução experiencial ao Śraddhā Yoga como prática cotidiana de escuta e foco

Haṃsagati, desse modo, nomeia o estado de meditação alcançado quando estamos em movimento, em marcha – “gati”, no sânscrito.
Francisco Barreto, na Fazenda Mãe Natureza e
em uma caminhada na Serra de Itabaiana.
Haṃsa:
a meditação que respira

A Bhagavad Gītā revela que não há situação na vida que não possa ser habitada com presença meditativa. Essa presença nasce do reconhecimento do diálogo entre os dois campos do ser: kuru-kṣetra, o campo das ações; e dharma-kṣetra, o campo da escuta do coração. A esse duplo gesto — agir e escutar — chamamos meditação em movimento.

No Śraddhā Yoga, esse estado é representado pelo mantra “Haṃ-sa”, o cisne que respira no centro. Cada inspiração pronuncia o som “haṃ”; cada expiração, “sa”. Meditar, então, não é parar — é focar enquanto se caminha, como Arjuna ao lado de Krishna, como o praticante atento à respiração.

2026-02-15

O Fio de Ariadne na Genética do Espírito: O Reconhecimento da Pitṛ-ṛṇa

Nota Introdutória: Este registro encerra as reflexões sobre a Pitṛ-ṛṇa (dívida com os ancestrais), integrando um achado recente que ilumina a travessia descrita neste capítulo. Mais do que um resgate histórico, trata-se de um testemunho de como o Śraddhā Yoga se manifesta como uma memória viva, confirmando que os laços de família são, em última análise, reencontros de propósitos espirituais.
Receber o livro As Grandes Indagações,  escrito por meu tio Paulo Barretto aos 91 anos, e lançado no final de 2024, foi mais do que um presente; foi um choque de reconhecimento ontológico. Ao ler suas reflexões sobre o monismo, a sintonia entre ciência e religião e a defesa ética do vegetarianismo, percebi que as águas que alimentam o meu Śraddhā Yoga já corriam, com igual vigor, em solo ancestral. O que torna esse encontro extraordinário é o fato de que quase não tivemos contato ao longo da vida; não houve mimetismo ou influência direta, mas o "eixo" é o mesmo. Esse reconhecimento é, para mim, um dado de darśana: não uma ideia sobre a unidade, mas um traço do real que se mostra — como se a linhagem fosse um dos modos pelos quais o Hṛdaya-Guru confirma a direção. Onde ele vê a "Queda e o Retorno" do espírito, eu vejo a Entropia e a Sintropia da consciência. Onde ele aponta o elétron como ponte para o invisível, eu busco a Consciência Fractal.

2018-06-02

O Processo Sintrópico de Gestação da Instituição Grande Síntese – Um Chamado para a Vida Integral

A Arte e a Ciência da Meditação segundo a Bhagavad Gītā

Conforme mencionei no texto  A Via do Coração: um reencontro com Francisco Barreto, entre janeiro de 1988 e maio de 1989, realizamos, durante as tardes de sábado, no antigo Ashram Ātma, no povoado de Areia Branca, em Aracaju -- SE, uma série de quarenta e dois encontros, denominados de Buddhi Yajñas (Esforços de Intelecção). Nestes encontros, buscávamos, de forma colaborativa e integrativa (sintropicamente), refletir sobre o processo de gestação da Grande Síntese -- a instituição destinada a abrigar o Śuddha Sabhā Ātma, o núcleo responsável pela concepção da Universidade do Coração,  um espaço dedicado ao desenvolvimento da consciência e do potencial humano. O Ashram Ātma, importante centro de estudos e práticas espirituais da época, passava por um período de transformação.

Os registros aqui apresentados lançam luz sobre a transformação da jornada espiritual de Francisco, entrelaçada com o ocaso do Ashram Ātma e a subsequente emergência da Grande Síntese. A narrativa expõe os desafios que o Ashram Ātma enfrentou,  como a  percepção de diluição de suas práticas espirituais e o ingresso de membros sem a devida preparação. Esses fatores culminaram em um apelo por um retorno à essência da vida espiritual, livre de dogmas e aberta a todos os buscadores."

Francisco leu e legitimou estes registros, deixando no próprio texto, um comentário de aprovação e a sua assinatura. Os originais, na verdade, nada além de um rascunho das minhas notas pessoais sobre os tópicos tratados nas reuniões, fazem parte do acervo do Memorial da Grande Síntese.

2018-12-04

Ṛṣi-nyāsa: a perfeita alegria de ser, antes de fazer e dizer

Quando Nara se deixa conduzir por Nārāyaṇa, a quadriga da mente avança do saṃsāra ao nirvāṇa.
A Invocação e a internalização de uma divindade arquetípica é conhecida na literatura sagrada como Ṛṣi-nyāsa1. O termo "Ṛṣi" costuma ser traduzido como "sábio, vidente, aquele que vê a verdade". "Nyāsa", em geral, significa "entrega, confiança, colocação, depósito". A compreensão completa de nyāsa vem por meio da experiência pessoal e da prática espiritual. "Ṛṣi-nyāsa" costuma ser traduzido como "a invocação de bençãos aos sábios", ou "a confiança nos sábios", de uma dada tradição espiritual de mestre para discípulo (Guruśiṣyaparamparā). Contudo, Ṛṣi-nyāsa significa mais do que um ato de reverência e reconhecimento da autoridade espiritual dos preceptores espirituais de uma dada tradição. Não se trata, simplesmente, de fazer invocações para entrar em contato com a sabedoria e as bençãos acumuladas ao longo das eras, ou de recitar mantras e  realizar rituais (yajñas). No contexto do Śuddha Yoga, conforme ensina a tradição (Paramparā) de aprendizagem (Praśiṣya) dos discípulos (Ṡiṣya) dos grandes mestres da hierarquia espiritual (Ṛṣi–Praśiṣya–Śiṣya–Paramparā), somente aqueles que se dedicam ao aprendizado de ver em todos os seres  um instrutor2 (guru) podem, de fato, experimentar, para além da realidade objetiva, de Ṛṣi-nyāsa.

2022-01-22

Casamento — Um Saṃskāra do Hṛdaya

(22 de janeiro / 06 de fevereiro de 1983)
Casamento não é apenas um acontecimento social, nem um marco jurídico ou afetivo. É um saṃskāra — um gesto que imprime forma duradoura ao ser quando nasce do hṛdaya e se sustenta no tempo como eixo, não como contrato.

1. A Assimetria dos Tempos

Certos gestos pertencem ao tempo social — precisam de testemunhas, datas, registros. Outros, ao tempo do coração — exigem, primeiro, o silêncio. As imagens que abrem este texto preservam essa assimetria necessária: de um lado, o rito público; do outro, o rito silencioso. Não há hierarquia entre eles, mas uma distinção funcional: nem tudo o que sustenta a vida ocupa o centro da cena.

2016-10-03

Ensaio Autobiográfico

Este Diário é a bússola anti-psicanalítica de que me valho para alcançar o porto seguro do Ser.
Ashram Ātma
Até onde consigo me recordar, foi em 1972, após completar quinze anos de idade, que despertei para a espiritualidade pura e os valores do sagrado coração. Nesse ano, se não me falha a memória, assisti Siddhartha e, em seguida, li o livro homônimo de Hermann Hesse, que deu origem ao filme. A partir de Hermann Hesse, descobri Krishnamurti, Vivekananda e vários outros expoentes da Teosofia e do neo-Vedanta então em voga. Foi, contudo, por intermédio do meu falecido tio Sérgio Barretto, que vim a conhecer as práticas de meditação. Costumava passar as férias escolares em Ribeirão Preto e gostava de conversar sobre espiritualidade com ele. Percebendo o meu interesse crescente no assunto, ele logo me indicou o antigo Ashram Sarva Mangalam, dirigido pela Marinês Peçanha de Figueiredo e que funcionava em um casarão, na esquina da rua Aurélia com as ruas Heitor Penteado e Cerro Corá, no bairro da Pompéia, em São Paulo. Ali conheci o saudoso Sri Vajera, que estava de passagem pelo Brasil. Algumas semanas depois, mais precisamente em 25 de agosto de 1974, fui iniciado por ele no Śuddha Rāja Yoga. A partir desta data as práticas de meditação passaram a ocupar um lugar central em minha vida pessoal e acadêmica. É desta simbiose entre a teoria, entendida em seu sentido original, e a experiência pessoal com as práticas de meditação que pretendo tratar, brevemente, nas linhas que se seguem. O entendimento mais superficial e raso, que persiste até hoje, opondo de forma radical a teoria e a práxis, surge apenas com ​a filosofia do hilemorfismo,​ proposta por Aristóteles, segundo a qual todas as coisas ​seriam compostas, exclusivamente, de matéria (hyle) e forma (morphe)​.​ ​Para Aristóteles, a teoria representa a busca de conhecimento por mero prazer e deleite pessoal, enquanto a práxis envolve a aplicação dos conhecimentos teóricos em consonância com uma conduta moral e ética. A teoria estaria restrita ao domínio da forma; e a práxis, ao domínio da vida material. Originalmente, contudo, o termo grego "theoria" já denotava ​a ​contemplação ​amorosa ​e desapaixonada, acessível, unicamente, àqueles capazes de subjugar as suas emoções e desejos, de modo que o intelecto pudesse funcionar, na práxis, sob a luz do Espírito. 

2021-10-15

Onde quer que você esteja, seja a alma do lugar . . .

Quando chegamos ao Rio, em janeiro de 1991, Cássia e eu ainda não sabíamos exatamente porque estávamos vindo para cá e não para São Paulo, de onde partíramos para nos juntar ao projeto pioneiro desenvolvido por Francisco Barreto, em Sergipe, fundado em uma práxis que, hoje, chamamos de sintrópica. Não sabíamos, até então, que iríamos colaborar para plantar os Upadeśas, ou sementes da cultura sintrópica no Rio de Janeiro. As linhas que se seguem discorrem sobre alguns aspectos da disciplina que nos orientou neste longo processo e que é nosso tema principal desde o artigo inaugural do portal, "A Meditação segundo a Bhagavad Gītā", que celebrava o Dia do Mestre. Em seu sentido mais profundo o termo "mestre" denota o  "Ācārya", o mentor ou guru espiritual, cuja missão de vida pode ser resumida na máxima: "Eu não vim para te ensinar, eu vim amar. O amor te ensinará".